Hoje o passeio foi longo, quiz verificar o que havia a respeito de certas antiguidades na ribeira de Carenque.
Ha tempos, nem me recordo porque circumstancia, folheei um opusculo intitulado==Representações dirigidas a S. M. a Rainha e ao corpo legislativo pela Camara Municipal de Lisboa sobre o abastecimento d’aguas na Capital==(Lisboa, 1853). Ora estas representações são acompanhadas de pequenas memorias de J. M. O. Pimentel e do engenheiro Pézerat, duas summidades do seu tempo. A de Pézerat começa a pag. 53:==Memoria sobre as conservas d’agua da Quintam até ao Salto Grande.==
Tratava-se de estabelecer tanques nos valles superiores (da ribeira de Carenque), ou conserva para a repreza de todas as aguas de sobejo fornecidas no inverno pelos differentes nascentes d’este systema de aqueducto (o das Aguas Livres). E diz Pézerat:==Descobri o valle da Quintam, com condições muito favoraveis porquanto já tinha servido em tempos remotos de conserva ou bacia para uma immensa repreza, cuja existencia está provada pelos restos do antigo paredão ou marachão com 11 metros de largura, e 9 de altura, e que os habitantes attribuiam á epocha do dominio romano, e como tal o denominam, porém mui facilmente reconheci pertencer á epocha mourisca.==
Na planta que vem com a memoria marcam-se o casal da Fonte Santa, o resto do marachão, as linhas do aqueducto de D. João V, as mães d’agua, velha e nova, a escavação de um aqueducto abandonado, o valle de Fornos, o casal da Quintam e as ruinas do Castello velho.
Eu desejava ver estas antigualhas.
Parti de Carnide á Porcalhota, ao sitio da Amadora, passei por um grande arco sob a linha ferrea, e entrei na estrada de Carenque, que vae seguindo a corrente. Um valle muito comprido, accidentado, com dois logares, Carenque de baixo, Carenque de cima, alguns grupos de casebres, azenhas, pequenas hortas, e dominando tudo a formidavel obra do aqueducto das Aguas Livres, sempre bem feita, de silharia sempre bem faciada, formidavel monumento.
A principio ia desanimando, ninguem me sabia dizer das velharias mouriscas ou romanas, nem da Quintam, e cheguei assim ao casal do Ernesto.
Ahi depois de expôr a minha questão a um grupo que nada sabia, surgiu-me um sujeito côxo conhecedor do caso, da obra dos mouros (não me fallou de romanos) e da Quintam. Este côxo providencial chama-se João Silvestre, e foi pastor na sua mocidade. Pastores sabem muito, andam pelos montes e charnecas, por atalhos e a corta-matto; são sempre bons informadores.
Com o Silvestre passei as terras do casal do Ernesto; em breve estava na ponte entre as mães d’agua; a chamada nova (D. João V) é uma linda construcção oitavada, de elegantes fórmas singelas, classicas, parece uma obra grega. Pouco acima avistava-se outra obra inconfundivel, o marachão, enorme, firme, apezar das cheias, dos seculos e dos homens.
Porque já para a obra do aqueducto de D. João V tiveram de o romper a poente, e mais recentemente a nascente para a passagem de uma estrada; todavia o que existe é pouco menos do que viu Pézerat.