Nas dimensões que elle apresenta, na da largura do paredão, houve engano me parece. Contando com os encostos ou gigantes, na base, chega-se a 11 metros, mas a parede em si tem 7 metros, o que é bem respeitavel. É feito de camadas de pedregulho e argamassa, revestido de pedras grandes irregulares e mal faciadas, em fiadas; por isto me parece obra dos arabes; os romanos em obra de tal importancia empregavam os seus bellos apparelhos. O paredão tem 9 metros de altura na face do sul. Completo teria 40 a 50 metros de comprimento, e 5 ou 6 de altura sobre o terreno a montante; ora a montante segue-se uma varzea consideravel que fechada formaria uma grande albufeira. Mais acima, a 2 kilometros, fica a Quintam, um casal muito velho; ao lado restos da muralha com ameias, e um grande portal.

É de notar que junto de Odivellas, sahindo da povoação a entrar no atalho que vem ao moinho da Luz, na estrada militar, está um muro ameiado, com seu portico em ogiva, resto tambem de uma construcção fortificada. Castellos não seriam, mas habitações fortificadas talvez.

E disse-me o Silvestre,—mas por aqui ainda ha melhor, se tem tempo e vontade eu lhe vou mostrar a eira dos mouros.—Trepámos por atalho até uma chapada, proxima e inferior á crista do cerro que é formado de calcareo secundario muito fragmentado. E achei-me em face de um problema.

É uma chapada ligeiramente inclinada de poente para nascente. N’este declive traçaram um octogono regular, menos a face do nascente que está de nivel com o terreno natural. Este octogono está cercado por um muro duplo, isto é, por dois muros parallelos que entre si conservam um intervallo de meio metro; estes muros conservam a mesma altura em cinco lados do octogono, decrescem nos dois a nascente até chegar ao nivel do solo. Os muros teem 0,5 de espessura; nos cinco lados a poente, norte e sul, quasi um metro de altura na face interior, porque na exterior, a poente estão com o terreno, que é mais alto ahi. São de alvenaria bem solida. No espaço assim limitado arranjaram um centro plano e das paredes para esse centro ha declives regulares, artificiaes. Todo este espaço interior está, não calçado de pedra, mas forrado de uma forte camada de alvenaria, que assenta, como se vê n’um ponto que está escavado (por algum caçador, ou mais provavelmente por algum sonhador de thesouros; porque, notou o antigo pastor, dizem que ha muita somma de dinheiro e outras cousas enterradas por estes sitios), em grande camada de pedregulhos.

—Dizem que era aqui que os mouros se vinham divertir,—informou o Silvestre. Um theatro, uma palestra, uma praça de touros? quasi que parece; mas para que a dupla parede com a sua sanja ou caneiro? E os declives, e a solidissima alvenaria que forra o fundo? Para um fim industrial, ou assento de grande arribana, tambem não vejo; se fosse questão de aguas, tanques de lavagem, então não fariam aquella obra na altura, porque o rio corre muito abaixo. O espaço é consideravel; tem proximamente 35 metros de diametro maximo, e os lados, muito regulares, tem 15 metros cada um na face interna. Ha outras eiras de mouros, disse Silvestre, mas sem o duplo muro, n’uns outeiros mais distantes.


10 de abril de 1898.

Hoje pela manhã fui vêr uma obra d’arte na quinta da Marqueza. A meio do jardim quadrado agora exhuberante de bellas rosas, de macissos de flôres, está um tanque de fino marmore, grande, formado de enormes blocos lavrados, com seus chanfros e curvas, decorado de quatro mascaras collossaes; sobre a borda do tanque quatro golphinhos decorativos de cauda erguida, infelizmente quebradas as extremidades, que lançam jorros d’agua para o tanque. No centro um grande grupo, um tritão vigoroso, uma formosa sereia e um genio marinho, em posições movimentadas, dando um todo agradavel de qualquer lado que se observe. É uma peça de esculptura notavel em marmore de Italia.

Depois segui para o casal do Falcão, que não tinha ainda examinado internamente. É um grande predio apalaçado, com suas dependencias; palacio e centro de exploração agricola. Da casa de residencia está metade em pé, outra que olhava ao norte, e que tinha como a do nascente a sua alta varanda coberta, com finas pilastras, foi derrubada ha muito tempo. Tem dois pavimentos; no terreo estão cosinhas e arrecadações; no superior, o andar nobre, salas e alcovas. As salas eram ladrilhadas, com altos rodapés de azulejo, e tectos de madeira em caixilhos ou almofadas.

Tem capella. Sobre a porta da pequena mas elegante egrejinha está o lettreiro:==Dedicada a Nosa Snra da Asumsão ano de 1705 (?).==