Parece-me 1705, mas os dois ultimos algarismos estão muito gastos. O altar-mór tem seu retabulo em marmores lavrados, com seus nichos, em trabalho que tem movimento. Nas paredes ha azulejos bem conservados, e em frente da pequena tribuna um lettreiro diz que alli está enterrado João Coelho que instituiu a quinta em morgado em 1647. Esta casa com suas dependencias, lagares, arribanas, abegoarias, é um bello exemplar de construcção portugueza no seculo XVII.

Entre almoço e jantar fui vêr o casal e o moinho do Castello, para lá de Alfornellos ou talvez melhor, Alfornel.

Estes nomes de Fornos, Fornellos e Alfornellos indicam a existencia de antigos fornos, os d’estes sitios provavelmente só destinados a coser calcareo e grossa ceramica; não encontrei ainda escorias de metaes.

O moinho do Castello desappareceu, está lá como testemunha a grande pedra do frechal. A altura é formada por calcareo jurassico, cujas cristas parallelas afloram sobre o solo. Não vi grandes movimentos de terra ou pedra que indiquem trincheiras bem definidas. Nem fragmentos de ceramica, escorias, ou outra qualquer cousa que indique trabalho humano. É possivel todavia que alli tenha havido alguma fortificação prehistorica; á vista e não muito distante está outro monte a que um pastor tambem chamou do Castello.

A proposito de movimentos de pedra e terra direi que nos arredores de Lisboa o archeologo precisa estar sempre lembrado de que dois formidaveis trabalhos se proseguem ha muitos seculos por estes sitios; a exploração das pedreiras, e a pesquiza e captagem das aguas.

O trabalho das pedreiras em varias epochas, depois dos terremotos da capital, foi collossal. A formação de aqueductos para Lisboa, especialmente o prodigioso trabalho da rede do Aqueducto das Aguas Livres que acompanha e alimenta o cano geral deu origem tambem a grande deslocação de material.

Seguindo do casal do Castello para Falagueiras segui eu um ramo do aqueducto, e um caneiro para regularisar a sahida das aguas do valle, tudo bem feito, com solidas fiadas de silhares, suas caixas d’agua, algumas das quaes me pareceram muito anteriores ás suas visinhas do tempo de D. João V. Exactamente, antes de chegar á queda da ribeira onde está uma grande caixa d’agua, vi muitos movimentos de terra, comoros artificiaes, que n’outra região tomaria por mamunhas ou mamoas tumulares.


O rev. padre Pereira, actual prior de S. Lourenço de Carnide, tem colligido muitas noticias para a historia d’este logar.

Para o estudo da topographia de Carnide e seus arredores serve muito bem a carta n.ᵒ 7, publicada pelo Corpo d’Estado Maior.