A historia da egreja de Nossa Senhora da Luz, e do edificio onde actualmente se acha installado o Collegio Militar, encontra-se na Vida da infanta D. Maria, filha de D. Manuel, por fr. Miguel Pacheco (Lisboa, 1675); em O Occidente, vol. de 1890, pag. 219; e no Archivo Pittoresco, vol. de 1863, pag. 299.
O casal do Falcão mereceu estudo especial ao sr. Julio de Castilho, 2.ᵒ visconde de Castilho, gentil espirito que esmalta de poesia a mais variada erudição. O sr. visconde publicou no Instituto de Coimbra, vols. de 1889-90, uma serie de artigos historiando os dramaticos amores do pintor Francisco Vieira de Mattos, o Vieira Lusitano, com a firme e leal senhora, D. Ignez Helena de Lima e Mello, que apoz dolorosos episodios foi esposa do grande artista.
Esses amores puros, honestos, bem portuguezes, que douram de deliciosa poesia os restos, agora tristes, da fidalga vivenda, de ha muito chamada o casal do Falcão, foram contados pelo proprio Vieira n’um livro: «O insigne pintor e leal esposo Vieira Lusitano, historia verdadeira que elle escreve em cantos lyricos (Lisboa, 1780)»; livro interessante porque além do poema amoroso, apresenta grande numero de quadros de costumes, scenas palacianas, festas populares, e noticias artisticas.
Noticias de Carnide
(1900)
Domingo, 12 de junho de 1898.—No fim da tarde trovoada forte, e chuva grossa; d’estes chuveiros que no campo fazem bulha batendo nas folhagens do arvoredo; um rufar grave que se ouve a centos de metros. Em Carnide não cahiu granizo; nas Laranjeiras bastante, mais forte na Palhavã; no Matadouro a saraiva foi tão valente que partiu vidraças; e em Sacavem e Cabo Ruivo ficaram algumas propriedades arrazadas.
Não ha memoria por estes sitios de tempestade tão violenta.
Vespera de Santo Antonio.—Á noite fizeram-se sortes; quatro papelinhos, nome de senhora, nome de homem, sitio, e o que estavam fazendo. Permittem-se cousas... que fazem rir. Queimam-se alcachofras, ha a historia da moeda de cinco réis, os foguinhos de vistas, valverdes e bichas de rabiar. Uns rapazotes da visinhança estiveram n’um pateo, durante duas horas talvez, atirando bombas. A philarmonica tocou o seu reportorio no coreto armado no Alto do Poço. Junto do coreto raparigas e alguns rapazes dançavam e cantavam. Cantigas triviaes geraes; não ouvi nenhum cantar especial de Santo Antonio, nem na letra nem na musica. O mesmo succedeu pelo S. João; não encontrei nada particular nas celebrações populares. Brinca-se, riem, dançam, conversam sem mostrar feição local. Creio que ouvi mesmo a valsa dos Quadros dissolventes. Nada que recorde as cantigas do Alemtejo nem as da Beira, as fogueiras do valle do Mondego, que teem cunho especial, typos admiraveis, musicas que tão bem enquadram umas nas vastas campinas alemtejanas, outras na paisagem mimosa, nos frescos valles da Beira. É digno de reparo que estas cantigas populares de uma região não se vulgarisem fóra d’ella.
Teem suas espheras. Ao mesmo tempo ha cantigas de origem não popular que se generalisam rapidamente. A fogueira de Coimbra, arranjada no Burro do sr. Alcaide, a Noite serena lindo luar, tambem de Coimbra, que não são de origem popular, espalharam-se por todo o paiz. A valsa dos Quadros dissolventes foi uma explosão; os garotos assobiavam-n’a nos bairros de Lisboa, ouvia-se em pianos nas mansardas da baixa, aos operarios de Sacavem, e a vendedores torrejanos, isto dentro de um mez.