Duram mezes, ás vezes annos, certas cantigas; esvaem-se pouco a pouco, ou desapparecem de chofre como a Rosa tyranna. São modas que passam, como as reformas administrativas e as leis eleitoraes. Assim passou a epidemia do chocalhinho, o caso da salva brava, o pão de Kuhne. Não se recordam do Estás lá ou és de gêsso, do Lindos olhos tem o môcho, do Debaixo do sophá, do Vae-te embora Antonio?
As musicas de Offenbach foram muito populares, mas para estas concorreram certamente os theatros de feiras. No Alemtejo cantigas de mondadeiras, de vindimeiras, e as de S. João, que se cantam tambem pelo Santo Antonio e pelo S. Pedro, pertencem a fundo antigo popular. Só ha tempos ouvi em Carnide uma trova que me fez lembrar o Alemtejo, a cantilena muito comprida, melancholica, de um homem que lavrava com a sua junta de bois; conversámos, perguntei-lhe de onde era; de Villa Franca. É que o Ribatejo já tem muito de alemtejano.
Dia de Santo Antonio, de 1898.—Fez-se a eira no casal do Falcão; ante a grande frontaria do nascente, limpou-se da erva o amplo terreiro. Com a chuva da trovoada da tarde de hontem, e da noite, o terreno estava encharcado; depois de limpo entrou um rebanho de ovelhas para calcar, com o seu moroso voltear.
Foi no dia de Santo Antonio, 13 de junho de 1898, que obtive licença para vêr algumas salas do convento. Acompanhou-nos o reverendo capellão padre Louro, protector carinhoso das velhinhas recolhidas, tão modestas e tão religiosas.
A superiora chama-se D. Maria Guilhermina de S. José. As suas companheiras são Maria de Jesus, Maria Philomena, Maria Augusta, Josephina, Olympia, Maria do Carmo e Isabel. Vivem em perfeita communidade estas santas senhoras, na virtude, na oração e nos humildes trabalhos, como se Santa Thereza em pessoa ali estivesse fazendo cumprir a sua regra.
No claustro a arcada muito clara e limpa, a cantaria lavada e as paredes caiadas, tudo muito nitido, e cheio de reflexos de sol. No meio da quadra o jardim, ainda o jardim antigo, o tanque central, e os alegretes altos azulejados. E ainda as lindas flôres antigas, as rosas e os cravos, o novelleiro, a baunilha, o jasmineiro, a alfazema e a manjerona, a malva de cheiro, e a lucialima de fina folhagem.
A capella do Senhor dos Perdões está bem conservada na sua elegante architectura. Na quadra, junto do jardim, ha duas capellas; o lado de dentro das portas d’estas capellas é pintado a oleo, com folhagens em volutas e espiraes, bom exemplar de pintura decorativa do seculo XVII.
N’um altar do claustro vi azulejos iguaes aos dos altares do cruzeiro da egreja, e da capella do Senhor dos Passos; bellos exemplares do seculo XVII.
No tanque da cêrca está um quadro em azulejo representando a Samaritana.