Na escura passagem do cruzeiro para a sacristia uma campa singelissima com um nome que illumina os espiritos, fr. Luis de Sousa.
E no claustro proximo, muito tranquillo e fresco, convidando a serena meditação, a capella e o jazigo de D. João de Castro.
É um grupo incomparavel de recordações portuguezas.
Isto escrevi eu na Revista Archeologica de Borges de Figueiredo (vol. 3.ᵒ, de 1889, pag. 99). Querido amigo! Infeliz espirito, tão maltratado na lucta da vida!
Era archeologo, latinista e epigraphista de alto merecimento. Corpo enfermiço, franzino, tez pallida, mortiço o olhar, fraca a vista; bella intelligencia cultivada, com solida erudição e fina critica. Os seus ultimos tempos foram de doença e desgosto. Por tres vezes, se bem me recordo, visitámos juntos o sitio de S. Domingos de Bemfica; elle levava sempre a filha, nos seus passeios; uma menina delicada, debil no aspecto, cheia de meiguice. Eram inseparaveis, ella queria estar sempre junto, bem junto do pae. O meu pobre amigo falleceu na manhan de 15 d’outubro de 1890; tinha feito na vespera 37 annos. Foi professor na Escola Rodrigues Sampaio, por algum tempo ensinou num collegio particular; durante annos foi laborioso bibliothecario da Sociedade de Geographia. Escreveu livros muito apreciaveis; Coimbra antiga e moderna, O Mosteiro de Odivellas, a Geographia dos Lusiadas; em todos os seus trabalhos se revéla bem o espirito de investigação, e a sã critica historica. Parecia impossivel aquella actividade em tão fraco organismo. Na Revista Archeologica deixou entre varios trabalhos bons, um de alta importancia sobre as inscripções em verso leonino em Portugal. A filha morreu um mez depois do pae; não soffreu aquella ausencia, finou-se a pobre creança debil, asphyxiada de morte pela saudade amarga.
Quantas mudanças na egreja de S. Domingos de Bemfica fez depois o bem intencionado architecto Nepomuceno! A urna do Albergaria foi para o ante-côro sombrio, para cima de duas misulas ou cachorros, á maneira de deposito de agua para não visto lavabo. O tumulo de João das Regras foi para o meio do côro, onde está bem para ser visto. A estatua jacente do insigne doutor soffreu concerto, a mão direita aperta um livro sobre o peito; a esquerda tinha desapparecido. Segundo a chronica cahia sobre o coração, como se elle estivesse orando. Nepomuceno mandou fazer a mão que faltava, erguida, segurando um papel enrolado. E parece agora que o inclito doutor está indeciso entre o livro e o rolo de papel.
Ha pouco tempo, já depois da obra a que se procedeu, visitei a egreja tomando notas mais minuciosas.