S. Cassiano.—No côro de baixo ha um pequeno quadro com retrato a oleo, pintura antiga, que me tornou attento; representa um santo bispo com uma cartilha na mão; é S. Cassiano, que era mestre de meninos e todo dedicado á educação da infancia, que morreu martyrisado pelos discipulos. Exemplo raro sem duvida! No meu tempo, e desde quando viria o systema! era o mestre que martyrisava os rapazes com palmatoadas, varadas e sopapos, castigos deprimentes das pobres alminhas das creanças; e ás vezes os paes assomavam á porta da escola, e animavam de lá: «não m’o poupe, sr. mestre, não m’o poupe; ensine-me bem o rapazelho!»

Que differença tem havido nos ultimos tempos, em materia de educação, nos pontos de vista, nos processos, e meios intelligentes; mas é preciso educar as almas, para que sejam boas, fortes, livres e religiosas na grande accepção do termo.


Pinturas.—Os quadros da capella-mór das freiras de Carnide são de Ignacio d’Oliveira Bernardes, segundo affirma C. Volkmar Machado, na sua Collecção de Memorias (pag. 94). Oliveira Bernardes (1695-1781), era tambem architecto, e n’esta qualidade trabalhou no palacio de Queluz, e na casa e quinta de Gerardo Devisme (a S. Domingos de Bemfica, onde actualmente está o collegio de meninas).

A grande tela magistral do Transito de Santa Thereza, é do pincel de José da Costa Negreiros, que foi discipulo do celebre André Gonçalves. Negreiros falleceu em 1759, com 45 annos. Esta familia Negreiros produziu varios artistas.

Percorrendo agora a Collecção de Memorias de Cyrillo Volkmar Machado, tomei algumas notas a respeito de quadros pintados que se podem ver em egrejas dos arredores de Lisboa.

Jeronymo de Barros Ferreira nasceu em 1750, em Guimarães, morreu em Lisboa em 1803; pintou o tecto da capella de Santa Brigida na egreja parochial de S. João Baptista do Lumiar.

Vanegas, castelhano, imitador do Parmezão; o painel do retabulo na capella-mór de N. S.ᵃ da Luz é d’este pintor (V. Machado, pag. 60).

Diogo Teixeira, pintor do tempo de D. Sebastião. Na Luz, ao pé dos quadros de Vanegas estão pinturas d’este Teixeira (pag. 68).

André Gonçalves (pag. 88). Este pintor que trabalhou immenso, falleceu em 1736; são d’elle alguns quadros da capella de Queluz, os quadros da vida de S. João Baptista, no Lumiar, e os do côro de S. Domingos de Bemfica. Lendo estas Memorias de Volkmar Machado, fica-se com impressão dolorosa; como se trabalhou em Portugal no seculo passado e ainda no primeiro quartel d’este seculo! em pintura, architectura, esculptura, ourivesaria, em tecidos, em fundições. A enorme e violentissima crise das invasões francezas, não parou essa torrente de trabalho artistico; era o rei que encommendava estatuas e quadros, era Mafra e Ajuda que foram formidaveis escolas, e as casas fidalgas que mandavam fazer retratos, capellas, decorações dos seus palacios e jardins, eram os frades a querer azulejos e telas, e entalhados, e embrexados, eram os prelados, os cabidos, e até a humilde irmandade que ao menos queria ter o seu compromisso ou estatuto em bonita encadernação de velludo ou marroquim, com seus ornatos a ouro, e cantos e fecharia de prata.