Tanto assim que havia cinco mulheres==que só vivem e se sustentam de venderem candeias de offerecer, achando-se para isto de continuo em a egreja da Senhora. E diz depois (pag. 54 v.) das mais celebres romagens do seu tempo, em Portugal, a começar pela Senhora do Monte. O cap. II, (pag. 76 v.) é intitulado:==Particularidades da fonte de Nossa Senhora de Luz==, e tem muitas paginas consagradas á virtude dessa agua. E até o certificado de um medico (pag. 77 v.); mas eu não me posso demorar, e peço ao leitor curioso que veja o livro. Eu tenho que resumir. A pag. 190 conta==de algumas náos que a Senhora da Luz livrou da tormenta em que se viram perdidas, e logo abre o cap. XII:==Como Nossa Senhora da Luz é avogada dos mariantes.

É inutil dizer que todas essas paginas teem interessante lição e importancia historica.==Escreve ácerca da náo Luz, em 1497, e a este respeito se cita o templo de Nossa Senhora da Luz, em Goa, fundado sem duvida em lembrança da Luz, de Lisboa. E affirma que era costume os mariantes dessa longa viagem da India virem antes de embarcar em romagem á Luz de Carnide, depois de lá chegados á Luz de Goa. Que esta romagem da Luz está ligada ás primeiras navegações não offerece duvida. Conta (cap. XIII) o caso horrivel da náo Chagas (1560); e em memoria deste milagre,==hoje 7 de junho de 1570 vieram a esta casa da Luz com procissão todos os marinheiros da mesma náo.==E vem a historia da urca Fortuna, e da caravella de Pero Marques, a da náo hespanhola S.ᵗᵃ Ana, a da náo Betancor, e a do Salvador; e a de uma escotilha em que se salvou Pero Gonçalves, estando tres dias sobre ella no alto mar!

Na egreja havia quadros de milagres, imagens de cera, muletas de aleijados, grilhões de captivos, mortalhas de salvos na agonia, velas de naufragos escapos ao vendaval, pedaços de amarras de náos, pares de algemas, pelouros de artilheria grossa, (pag. 104 v.) e náos, pequeninas náos; «do côro ficam pendendo sobre a egreja quatro náos, que em fórma pequena contrafazem bem toda a fabrica das que navegam; e ha pouco tempo (note-se isto) que estavam oito que se tiraram assim por pôrem outras que vinham de novo, e não tinham lugar, como por se darem a algumas pessoas que as pediram».

E antes mais cousas havia:==na ermida antiga de todas estas cousas havia mór numero, de que tiraram algumas menos gastadas do tempo, para as mudarem aonde agora dizemos estão (pag. 204 v.)==As samarras, segundo a tradição, eram de uns homens que, na volta da India, naufragaram na costa da Cafraria, e andaram muito tempo perdidos pelo matto, fugindo das féras e dos pretos, até que, invocada a Senhora da Luz, lhes appareceram uns cafres misericordiosos que lhes deram suas proprias vestimentas.

Havia tambem cobras, isto é, pelles de cobras, uma de 4 varas de comprimento, provenientes do Brazil; mortas por milagres quando intentavam matar as pobres victimas nos seus anneis roliços, e com seus venenos fulminantes. Era uma collecção suggestiva essa, hoje sumida de todo perante esta moderna correcção idiota que tudo invade e vae dominando, matando arte e poesia e fé.

Carnide. Domingo, 15 de janeiro de 1899.—Começou hoje a funcionar o ascensor Rocio-S. Sebastião da Pedreira. Fui a Carnide no carro da rua da Asumpção. Carro cheio; pessoas que iam ao collegio militar visitar os filhos. Nestes domingos de visita ha sempre no carro conversas interessantes; dos filhos que vão bem, d’outros que perderam o anno; e corre-se uma larga escala de affectos, de caracteres, e de saudades. Viuvas que vão vêr os seus filhos, amigos que vão vêr os filhos dos que estão no ultramar para lhes dar noticias, tutores que visitam pobres orphãos. Todos levam uma lembrança, um embrulho atadinho, para os rapazes. Com as senhoras vão ás vezes meninas, mui palreiras, enthusiasmadas com a visita aos pequenos militares. Que estes carros de Carnide favorecem o cavaco, com os seus pulos e solavancos; vae uma pessoa muito correcta, zás solavanco, e vem uma senhora nervosa cair-nos nos joelhos; um cavalheiro solemne e mui serio, pula o carro, e elle apanha na cara com um chapeu de plumas, ou um papeluço de bolos. Quer a gente mover-se, não póde, está presa, as taboinhas dos assentos do carro apertam abas de casacos e dobras de vestidos; não faltam os preguinhos atrevidos que rasgam tecidos e ás vezes a pelle; ha sempre episodios; depois logo ao entrar na estrada das Larangeiras, o ar é mais fino, e fresco, com perfumes campesinos; a estrada da Luz tem vista de campos, de varzeas e arvoredo. Alegram-se os olhos de vêr a paizagem e os pulmões gozam ar mais puro.

Mas hoje, 15 de janeiro, o aspecto é outro, o vento é desabrido, de rajadas, ha nevoeiro denso, humido, que mal deixa vêr as arvores proximas, num esbatido leve. Na Luz alguns carros, e varios grupos; ha corridas pedestres e de bicycletas, e prepara-se uma partida de foot-ball.

Fomos até ao casal do Falcão, e ainda mais adiante a Alfornel vêr o faval nascente. Os trigos nasceram bem mas estão amuados.

A paisagem é extraordinaria hoje, porque a nevoa tem intermitencias; é um nevoeiro muito humido, irregular, de densidade diversa, e como a camada de nevoa que está passando não tem grande espessura, de vez em quando rompe-se e apparece logo o ceu velho, e um jorro de sol.

Como isto agora tem o aspecto triste, no nevoeiro frio e humido, rasgado pelo vento convulso que vae passando; o casal tão velho, ruina tragica, as figueiras, as vinhas sem folhas, como tiritando no frio de janeiro.