Jantar de familia, casa cheia; como a sopinha quente sabe bem neste frio de janeiro, em dia de nevoa cerrada; depois algumas especialidades, os nabos guisados, a carne de porco assada, com a loura agua pé; o pudim delicioso; as raivinhas e os esquecidos do Bom Successo. Ao café, com o competente cognac caseiro, entraram os srs. Duartes, de Mafra, que trouxeram elementos novos á cavaqueira. Contaram que el-rei mandára deitar javardos na tapada de Mafra; já entraram oito de Castello Branco, e um que nasceu no parque das Necessidades. Na Tapada, a comida é pouca; em tempos antigos houve porcos bravos ali, mas acabaram com elles porque nada lhes escapava.

De subito entrou uma mascarada animada, os meninos e meninas T., uma série muito gentil, vibrantes de riso; houve piano, valsas, improvisou-se um concerto: a sr.ᵃ D. G. cantou superiormente alguns trechos.

—Já 9 e um quarto! toca a ir para o carro.

Eu fiquei; da janella do meu gabinete a vista era admiravel; estava o ceu muito estrellado, havia algum luar, o ar muito frio e sereno; a nevoa abaixára, e estava agora quieta e branca sobre as varzeas, os campos do valle; muito salientes, a massa negra do casal do Falcão, e a collina triste coroada de cyprestes do cemiterio dos Arneiros; um grande silencio frio; como uma palpebra semicerrada de agonisante, a esvaír-se de luz e de vida, a lua em minguante, muito obliqua, branqueando a toalha de nevoa quieta sobre as terras mais baixas, as varzeas humidas.

Carnide, domingo 28 de janeiro de 1899.—Vi hoje lindas flôres do logar de Telheiras; com a inverneira que tem corrido, frios, geadas, tempestades, notei as flôres; é que o logar de Telheiras é mais ameno e abrigado, a este de Carnide mais alto e exposto ás grandes correntes do ar. O antigo oratorio, convento e egreja de Nossa Senhora da Porta do Ceu, em Telheiras, está hoje abandonado. É n’esta egreja que está a sepultura do principe de Candia, o pobre rei do Ceylão, fundador do edificio, que veiu morrer tão longe das suas florestas de canella.

O oratorio de Nossa Senhora da Porta do Ceu, de Telheiras, foi fundado pelo principe D. João de Candia. Este infeliz principe nasceu em Ceylão, por 1578, e teve de abandonar o seu throno de marfim e perolas, entre luctas politicas e religiosas; era criança ainda. Levaram-o para a ilha de Manar, depois a Gôa, e ao collegio dos Reis Magos de Bardez; veiu parar a S. Francisco de Lisboa, mais tarde a S. Francisco da Ponte, em Coimbra, e gastou o resto da vida a requerer e representar entre Lisboa e Madrid, porque então dominavam os Filippes. O que isto seria, Santo Deus! n’aquelles tempos, quando hoje basta uma burocracia para abafar e esterilisar todas as vontades, o que seria no tempo da dominação hespanhola com tantos officios e dezembargos em Lisboa e Madrid.

A historia d’este homem é interessante; pobre soberano de Candia, Cota, Ceytavaca e Cettecorlas, que veiu descançar aqui em Telheiras, cingindo o cordão franciscano.

Dizem que hoje não é assim; os soberanos desthronados vão direitinhos ás folias de Paris, e as alfayas e tapeçarias apparecem no Druot, escapando aos ministros de que falla o chronista Soledade.

Infeliz principe singalez, chamaram-lhe D. João d’Austria, e principe de Candia, e foi um martyr toda a vida; teimaram em ensinar-lhe latim e theologia, andou em bolandas pelos conventos intrigado e explorado, e nem mesmo cumpriram a sua ultima vontade. Morreu em 1 de abril de 1642, a sua morte foi um lauto regabofe para muita gente... «pelas mãos dos ministros, como ficaram todas as tapeçarias, peças de prata, e outras muitas alfayas preciosas, que elle tinha consignado á egreja d’este seu convento, as quaes levaram d’elle com violencia os ditos ministros, e sem obstarem os requerimentos dos religiosos, tudo repartiram e consumiram entre si.»

Isto escreve fr. Fernando da Soledade, na sua Chronica serafica, 5.ᵒ vol. n.ᵒ 893, pag. 611.