—Para que é o pinto preto?

—É para um doente que tem uma fraqueza, e não ha nada que lh’a tire. Dizem agora que só com o pinto preto... E a mulher instou que lh’o vendessem, ou emprestassem, depois traria outro.

—Não se vende, nem se empresta. Vá a outra porta. Vá á botica comprar remedios.

—Mas então, é para caldos?

—Não senhor! isto é uma crendice d’esta pobre gente. Abrem-no com uma faca pelo meio e applicam-no palpitante sobre o peito ou estomago se é fraqueza; se fôr por alguma dôr, sobre a região onde lhes dóe. É uma das taes tolices que não sáe dos cascos d’esta gente. Para estas cousas não sou capaz de vender o pobre animal.

Em livros de medicina mui velhos apparece o singular curativo; e recordo-me de ter lido que um medico de Lisboa, no seculo XVI, receitava ainda a ave aberta viva para a peste bubonica.


Jogo do pião.—Vi um grupo de rapazes jogando o pião. Nas cabeças dos piões os rapazes tinham mettido tachas de ferro de haste curta e cabeça larga de modo que os piões ficam com a cabeça protegida contra o ferrão do inimigo, é invenção nova para mim. E a isto chamam os rapazes pôr sêllo no pião, e é obrigatoria a sellagem; se apanham algum sem a cabeça couraçada, dizem logo:

Pião que não tem sêllo
Vae a casa do camêllo,

e atiram com elle para o telhado mais proximo.