Carnide, 1 de janeiro de 1900.—Caso novo, missa do gallo á entrada do anno. Disseram-me que por ordem do Santo Padre se transferiu a missa do Natal, por esta e a vez seguinte, para celebração do novo seculo, visto que surgiram duvidas (a meu vêr singulares) ácerca de qual é o primeiro anno do seculo XX, se é 1900 ou 1901.

Não consta que se começasse a datar do anno zero, do seculo zero; mas assim vae o mundo. Começou pois o anno santo pela missa do gallo.

Antes da missa do gallo passiei no Alto do Poço, a noite estava muito serena e agradavel, e casualmente assisti a uma scena dramatica, a chegada de um expedicionario africanista, inesperada pela familia, que móra num predio daquelle sitio. O pobre soldado, minado pela febre, embarcára mui doente em Lourenço Marques; não poude avisar a familia, chegára a Lisboa já melhor, foi á inspecção ao hospital da Estrella, e logo lhe deram licença para passar alguns mezes em casa, ares patrios; e elle assim que apanhou a guia foi direitinho a Carnide. Como elle ia nervoso, febril, vêr os seus queridos nunca esquecidos, exalçados pela ausencia larga em regiões e climas remotos.

Na familia, durante a ausencia do moço soldado, houve mortes de pessoas queridas, que não lhe participaram para o não contristar, pobre rapaz.

Chega o soldado em sobresalto febril e logo reparou nos vestidos de luto; veiu gente conhecida da visinhança e romperam em parabens e lamentos, numa confusão de lagrimas.

No theatrinho de Carnide representou-se nessa noite, espectaculo feito por alguns curiosos da localidade, e terminado o ultimo acto um grupo animado, cantarolando, veiu da quinta do Sarmento, passando pela casa do pobre expedicionario. Eram conhecidos e amigos d’elle.

Missa do gallo! annunciava a sineta do convento, n’uma vibração fina cortando a noite.

Na egreja, cheia de devotos em muito silencio, como n’um mysterio, ergueu-se a voz do capellão.

Houve exposição do Santissimo, e communhão, na grade ás religiosas portuguezas, e na capella do Senhor dos Passos ás irmans de Missão. E exposição do Menino, com o seu alegre motete executado no orgão velhinho, por uma velhinha no seu habito de Santa Thereza.