Que singular espiritualidade acho neste cantar das velhinhas religiosas, tremulo, enfraquecido, esmorecendo como a toada de um sino que se esvae no ar. E contraste ainda nestas duas instituições aqui a par, a antiga, a que se apaga, a da vida contemplativa, ascetica, a da clausura austera, orante áparte da humanidade, e a nova da actividade christan, luctadora dos hospitaes, trabalhadora das escolas, militante em regiões longinquas, arrostando os paizes das febres e dos selvagens.
Missa do gallo em noite de anno novo, foi caso inedito para mim. O meu pobre espirito estava abalado pelos contrastes que presenceára, e ao mesmo tempo lembrava-me da antiga missa do galo, na minha freguezia de Santo Antão, seguida da canja no meu lar, tudo n’uma aureola de familia e de pureza santa!
D. Sebastião enamorado.—No jornal A Arte, de 1879 (pag. 158), se transcreve um antigo manuscripto que trata da—«Origem da desgraçada jornada de Africa que executou el-rei D. Sebastião para ruina total d’este reino».
É singular escripto e parece ter um fundo verdadeiro.
O sr. A. Pimentel tambem se lhe refere no seu bello livro Atravez do Passado (pag. 119).
Alguem, talvez com o fim de deprimir a familia do duque de Aveiro, no tempo pombalino, lhe juntou ou alterou umas linhas que no meu espirito não originam duvidas sobre os factos do seculo XVI ali relatados. O que ha escripto sobre D. Sebastião tem origens muito alheias á intenção historica simples; assim como o pobre infeliz rei viveu rodeado de intrigas palacianas, assim a sua memoria serviu ainda para enredadas phantasias, e manias politicas.
Que em roda do rapaz houve lucta de influencias a proposito do casamento d’Estado, provam-no muitos papeis velhos; que um amor natural perturbasse o coração do joven rei não custa a crer; que um duque, proximo do throno, favorecesse a inclinação do rei para sua filha, é bem possivel; que D. Catharina, e os politicos, vissem com inquieto olhar esses amores, é provavel tambem. Ora é esta a essencia do papel a que me refiro, e que vou mencionar aqui por se fallar n’elle de uma quinta de Carnide.
—O duque de Aveiro, D. Jorge de Lencastre, teve uma filha unica chamada D. Juliana, a quem creou no Paço a rainha D. Catharina, sendo Regente d’este reino. Era dama formosa, bem feita, e muito esperta; ao menos, quando não tivesse estas qualidades, agradou-se d’ella El-Rei D. Sebastião, sendo mancebo, e veiu a declarar-se mais depois do anno de 1568 em que tomou o governo. Similhantes inclinações, que não podem ser occultas muito tempo, principalmente entre pessoas taes, chegaram á noticia da Rainha, e do duque de Aveiro; porém com differentes sentimentos, porque a Rainha receiava a consequencia d’estes amores, de que era objecto uma bisneta de el-rei D. João o 2.ᵒ, e o genio apaixonado de seu neto, que teria então 20 annos, e D. Juliana, 16, com pouca differença; e o duque com uma vaidade disfarçada, e fingindo-se ignorante, do que todos sabiam, aspirava a altas ideias, lembrando-se de que era neto de um rei, da sua grande representação e casa, e tudo isto o persuadia de que algum dia sua filha a contariam no catalogo das Rainhas de Portugal—.