Não vejo nos nomes de proprietarios ou rendeiros nomes mouriscos; muitos teem dito que os saloios são de origem mourisca, nestes documentos não apparecem nomes desse elemento; apparecem individuos da familia Negro, judaica, proprietarios ou gente de negocio. Nestes documentos falla-se em muitos predios porque tratando da quinta de Carnide, cabeça dos predios rusticos de Urraca Martins Machado, e das suas dependencias ou terras annexas, ao mesmo tempo se mencionam varias com que confrontam. Não vejo mencionar cercas, tapadas, muros. Como noutras partes accumularam propriedades, arredondaram e muraram. Aqui a construcção dos conventos com suas cercas importantes alterou immenso a topographia dos predios.

Os conventos da Luz, de Santa Thereza, dos Carmelitas, o Hospicio das freiras de Christo, alastraram no fim do seculo XVI e no XVII os seus vastos edificios e amplas cercas de altos muros.

Todavia as estradas indicadas existem ainda hoje, a azinhaga da Fonte, o caminho de S. Lourenço para Bemfica, que é a estrada do Poço do Chão, que passa pela Granja, a estrada de A do Correia, estradas da Luz para o Lumiar, e da Luz para Lisboa. Em frente da porta travessa da egreja da Luz lá está ainda uma almoinha com suas latadas e canteiros; a quinta do Bom Nome, é agora chamada do Sarmento. A do Correia é a quinta da Correia, os logares ou aldeias de A da Beja, Dona Maria, Calhariz, Payam, Santo Eloy existem. O valle de Odivellas tão interessante conserva-se dividido em pequenas propriedades, de intensa cultura onde o saloio moureja.

Fóra d’esse valle a pequena propriedade quasi desappareceu; a tendencia é para accumular. Depois dos conventos, ou contemporaneamente, formaram as quintas depois chamadas do Oliveira, da Condessa, do Mossamedes, do casal do Falcão. Modernamente formou-se a grande quinta de Montalegre que fundiu cinco propriedades grandes; o collegio militar tambem alargou as suas terras. Só entre o logar de Carnide e o Paço do Lumiar se encontram os grandes vallados antigos, as propriedades sem muros.

A villa da Ericeira


(1903-1905)

Os caminhos mais seguidos para ir á Ericeira são os que partem de Mafra e de Cintra; este o mais frequentado.

A estação do caminho de ferro de Cintra está pittorescamente aconchegada na base do alteroso monte granitico, rochedos pardos entre manchas de vegetação verde escura, coroado pelas torres e quadrellas mouriscas terminadas na fina grega de ameias. Da estação partem os carros para a villa, para Collares e Ericeira.

Começa logo a descida, passa-se uma ponte; termina de subito a invasão das construcções modernas, e definem-se as modestas casas saloias da moda velha.