Termina a ladeira, salvam-se umas curvas de macadam, e apparece-nos a distancia a branca villa da Ericeira, como um bando de gaivotas pousado na riba da beira-mar.
As arribas são escarpas de 30, 40 metros de altura, pittorescas em muitos pontos pelo estranho colorido, pela fórma de fragmentação; parecem ruinas de edificios gigantes.
Escuros penedos á beira-mar quebram as vagas que se empinam em cristaes, se desfazem em brancas espumas ferventes, numa lucta rithmica. Das arribas a encosta faz uma plataforma, e logo sobe rapidamente o terreno para oriente, o lado de Mafra.
Nesse largo socalco assenta a villa da Ericeira, a branca villa toda caiada, porque os habitantes até branqueam os telhados de muitas casas, e as ermidas das arribas, S. Julião, S. Antonio e S. Sebastião parecem talhadas em sal marinho.
Nenhuma vegetação agora rompe a nitidez do verde mar, do escuro das furnas, da cal branca faiscando ao sol; só umas delgadas, flexiveis araucarias conseguem erguer-se sobre a linha da casaria; outras arvores ao passar a crista dos muros desfolham-se e quebram-se pela ventania maritima; nos pequenos quintaes abrigados ha roseiras finas, jasmins viçosos e latadas de dourado moscatel.
Tambem tenho ido á Ericeira, passando por Mafra. Na estação do caminho de ferro apparece um carro de bancos, especie de americano de montanha, que nos leva á povoação, vencendo uma comprida ladeira. Proximo á estação, sobre uma collina, avista-se uma aldeia de aspecto interessante; as casas cubicas, com suas barracas ou quinchosos aos lados, coroam o monte, semelhando uma fortificação de torres e quadrellas. A estrada vae subindo pela meia encosta de um grande massiço; os largos declives dos montes povoados de culturas, vinhedos; nos sovacos mais humidos grupos de vaccas leiteiras.
Para cortar caminho, indo de trem, atravessa-se um canto de tapada, uma rua de platanos, e logo o assombro do monumento.
Ha ali primores de extraordinario merecimento. Que magestade imponente nas linhas geraes, que afinação, que equilibrio entre os corpos que compõem o grande conjuncto, que acabada execução! e na egreja que relevos de delicado lavor! e que bello horisonte!
N’este paiz accidentado quasi todos os monumentos teem moldura de grandiosa paizagem; não succede o mesmo em França, Inglaterra, Allemanha onde a vista pára em arvoredos proximos ou encontra planuras monotonas. Mafra tem moldura larga e rica, basta a decorativa Cintra, joia azul, o mar, e aquella vastidão de terras accidentadas, com seus povos e casaes, quintas, vinhedos e manchas avelludadas de pinhal.
Os sinos, um dos primeiros carrilhões do mundo, enchem de vibração religiosa aquelles campos; ouvem-se muito ao longe; uma vez passando em Odrinhas ouvi uma toada longa, mui grave, que me impressionou; era a sonoridade dos sinos de Mafra que chega a muitos kilometros de distancia. Outra vez ouvi no carrilhão a valsa do Fausto! que typo de sineiro, quando hoje ha musicas escriptas expressamente para estes grandes instrumentos de musica!