—Dizem que está ahi um thesouro escondido, disse uma mulher.
Parece-me que a causa principal da ruina é esta crença, com a esperança de achar o metal precioso têm nocturnos exploradores arruinado o singular edificio. E eu achei no montão de pedregulhos, e fiz destacar, em marmore lavrado, nada menos que a pedra superior de uma ara romana com seus ornatos, volutas e folhagens, de bom estylo, com a grande cavidade destinada ao fogo. No terreno proximo, nos velhos muros de pedra solta, vi tijolos pequenos, fragmentos de grossas telhas, e ainda mais cabeceiras de sepulturas com suas cruzes e saimões. É unico o que ali está, n’aquelle modesto recinto onde se conservam vestigios antigos, de epocas entre si muito afastadas.
Sob o alpendre, solta, a grande pedra com lettreiro romano onde se mencionam individuos da tribu Galeria, e entre elles o de Elio Séneca. Dentro da egreja, á direita da porta principal, a enorme lapide, fixa, de Plocio Capito. Dizem que era de homem santo, e raspam-na para com o pó curar enfermidades. Pelo visto temos aqui um exemplo nitido de cultos continuados no mesmo local desde a antiguidade romana até agora. Mas ha lendas, velhas tradições aqui. Disse-me um homem que esta egreja era tão importante em tempos antigos que a gente de Santo Isidóro, Paço d’Ilhas e Quinta dos Chãos vinha enterrar os seus mortos n’este cemiterio, fazendo a longa caminhada de quatro leguas. E logo outro companheiro, um tanto a medo, me perguntou se eu julgava possivel que uma mulher fosse capaz de trazer ás costas aquella grande pedra, a do Séneca, desde Santo Isidóro, com o cadaver do filho. É lenda mui velha que eu vim encontrar agora nesta ultima terra da Europa.
Santo Isidóro é egreja parochial que fica a uma legua além da Ericeira; fica-lhe a pouca distancia a quinta dos Chãos, que desperta a curiosidade pelo seu isolamento, a sua represa d’aguas, os pequenos aqueductos, pateo, jardim, casa de residencia e officinas, um bello exemplo de habitação rural, modificada pelo tempo e variedade de usos, mas no todo lembrando uma antiga villa rustica. Ahi, n’uma varanda sobre um arco, servindo de meza, vi a bella lapide sepulcral dos Terencianos; e no jardim ha uma pia que me pareceu uma urna ou sarcophago romano, coberto em parte de cal. Segundo uma tradição a ribeira de Paço d’Ilhas que corre no profundo valle proximo era antigamente navegavel, e um velho paredão arruinado seria o resto do caes.
A costa
Da ponta da Lamparoeira corre a costa de norte a sul, por mais de 8 milhas, quasi toda de rocha escarpada até á foz da ribeira do Porto. A 1,5 milhas a N. da dita foz fica a Ericeira. A sul da villa uma pequena enseada com boa praia, a norte outra praia; ambas separadas pela grande massa de rochedos do portinho onde entram os barcos de pesca. Este porto é desabrigado dos ventos NNE a SSO por O.
Ha duas luzes de enfiamento, branca e vermelha, a 37,ᵐ7 de altitude.
O monumento de Mafra com suas elevadas torres e zimborio, a 270 metros sobre o nivel do mar, serve de reconhecimento e marca para este porto, avistando-se a 30,5 milhas.
Da foz da ribeira do Porto a costa a S 25° O, até ao cabo da Roca, a 10,3 milhas, quasi toda escarpada e elevada, apenas rota na praia das Maçãs na foz da ribeira de Collares, e na praia Grande a S d’esta. No Focinho da Roca o rochedo levanta-se a mais de 125 metros; sobre essa escarpa está o pharol da Roca, a 137 metros acima do nivel do mar. A meia milha ao mar do cabo está a pedra d’Arca: ha outros recifes que tornam perigosa a approximação.
A serra de Cintra eleva-se sobranceira ao Cabo, correndo para o interior na direcção de ENE. A sua maior altitude é no seu estremo E no castello da Pena, que tem 529 metros de cota.