Pelo que, e porque não crescesse mais o damno, e insolencia, foi necessario acudir com mais forte remedio. Deu-se ordem ao corregedor da côrte, e se mandáram ajuntar todos os ministros da justiça com os seus officiaes, e com quatrocentos soldados castelhanos bem armados, foram fazer a diligencia; e chegando perto do couto do novo rei, ficaram os soldados embuscados em um valle, indo a justiça adiante, e sendo descoberta pela guarda, arremeteram a elles como lobos.

Fugiu a justiça com muita pressa até os irem metter na embuscada, donde saindo com furia lhe deram uma carga de tiros com que mataram e feriram a muitos dos fautores do rei, fazendo fugir aos outros pelos montes e valles; foi preso o rei, e alguns do seu conselho, e trazido a Lisboa fez confissão, de que não era el-rei, nem pretendia sel-o, e que só intentava dar sobre Lisboa com as armas dos seus seguidores, na madrugada do dia de S. João, e vencida ella, como esperava, pertendia dizer ao reino que já o havia posto em liberdade para que fizessem rei. Foi enforcado em 14 de junho do dito anno, cortando-lhe primeiro a mão direita no Pelourinho, onde ficou pendurada, por passar provisões e alvarás falsos, fingindo-se el-rei D. Sebastião; a cabeça esteve um mez pregada na forca, e os quartos foram postos pelas portas da cidade; e no dia seguinte enforcaram e esquartejaram os outros, que foram presos com elle, um que fazia o officio de védor, que seria de quarenta annos, e outro que era pagem privado, que seria de edade de vinte annos.

Na Ericeira foram enforcados vinte homens que eram deste bando, muitos foram lançados a galés; e Pedro Affonso, marquez e conde general, e secretario do triste rei, fugiu no dia da prisão dos mais; mas pouco depois foi preso, fazendo-lhe em Lisboa o mesmo, que tinha feito ao seu soberano, e os pobres moradores d’aquelle contorno despovoaram a terra com medo, por terem seguido a voz do rei enganoso. Foram tambem presos e castigados muitos, que enganados o favoreciam de Lisboa, e lhe mandavam dinheiro, e peças de valor, como foram Antonio Simões, escrivão dos armazens, e Gregorio de Barros, ourives d’el-rei, pagando miseravelmente o zelo, com que cuidavam servir ao seu rei.

Parece que foi o intento de mandar chamar D. Diogo de Sousa, saber delle se era certo, como se dizia, que el-rei veiu na armada, porque sendo assim, e sabendo delle onde estava, e se estava prompto para entrar a governar, ajustariam ambos a fórma de occupar Lisboa e desoccupal-a dos castelhanos com aquella sua gente, e entregal-a ao dito rei, com o que ficava restituido ao seu reino, e aquelles servidores seriam bem gratificados por elle e agradecidos de todo o reino. Isto se colhe da sua confissão, e outra cousa se não deve imaginar, pelos descaminhos ou impossibilidades, a que se expunha por todas as vias; o que qualquer mediano entendimento conheceria mui bem.==

Antiguidades romanas e medievaes

Na Ericeira e seus arredores não vi antiguidades romanas; nem um signal, nenhuma pedra empregada em muro velho que denunciasse lavor de alta antiguidade; o trabalho agricola tem sido grande, o mar sabe Deus quantas escarpas tem demolido, elle que todos os dias está destruindo e abatendo os rochedos da costa. Mas n’um aro de raio de seis a dez kilometros surgem vestigios notaveis. As inscripções lapidares romanas são conhecidas; a região a norte de Cintra e Collares é rica de taes letreiros. Antiguidades pre-romanas são sabidas tambem. Não podemos esquecer o collar da Penha Verde, a grande joia prehistorica (que hoje está ennobrecendo, ao que me dizem, um muzeu inglez), o famoso dolmen de André Nunes ou Adrenunes, monumentos que provam a existencia por estes sitios de antiquissima civilisação pre-romana. Estacio da Veiga estudou as antiguidades d’estes sitios; no Corpus estão transcriptas em grande numero as inscripções romanas. Na Cintra pinturesca (pag. 192), se diz: «encontram-se com frequencia urnas e lapides sepulcraes em varios sitios especialmente em S. Miguel de Odrinhas, Morelino, Montelavar, etc.»

D’essas veneraveis pedras sepulcraes muitas desappareceram, ainda porém existem algumas importantes. Para as ver dei uns passeios a Odrinhas e á quinta dos Chãos.

Odrinhas fica a meio caminho entre Cintra e Ericeira. Ha ahi uma venda onde costumam parar os carros para descanço; abre-se em frente d’essa venda um caminho de aldeia que leva á egreja, S. Miguel de Odrinhas, a menos de um kilometro. É filial da parochia de S. João das Lampas. A porta principal diz a poente, uma alpendrada segue na frente e no lado sul; atrás da capella mór um espaço que serviu largos annos de cemiterio; muitas pedras de cabeceira nos seus logares, tendo nos circulos superiores esculpidas cruzes de varias fórmas, sinos saimões, e estrellas de seis pontas. Encostado á egreja um ediculo do seculo XIV. Junto da pequena porta lateral uma casa, talvez de antigo ermitão, a que chamam a casa dos ratos, que serve para metter medo a rapazes máos; sob o alpendre a grande mesa de pedra para as offertas. Ao norte da egreja, uma construcção circular, isolada, em ruina, mostrando ainda a nascença da abobada, feita de pedra miuda, vestigios de porta, e um vão na parede, que parece, seria destinado a ter um armario.

—É casa de mouros, disse alguem.

—Era onde guardavam os ossos tirados das covas do cemiterio, o ossuario, disse outro.