==Tambem por este mesmo sitio é situado o chamado Pinhal dos frades, por ter pertencido ao convento de Mafra.

==É uma importante propriedade nacional assim pelo numero como pela bondade e prestimo das arvores, que excedem em diametro e altura as de todos os outros pinhaes circumvisinhos.==Agora o Pinhal dos frades não tem um só pinheiro fradesco; tudo foi reduzido a lenha; é todo novo o pinhal; e que bom seria alarga-lo porque daria aos arredores da Ericeira um encanto a mais, principalmente agora que tanto se louva o ar do pinhal. Esses novos pinhaes que eu percorri seguindo a estrada de Mafra, e no lindo caminho para a quinta dos Chãos e Santo Isidóro, são viçosos, e recebem em primeira mão a viração pura do mar; dá prazer respirar no ar do pinhal!

Achei muito curiosa esta noticia da Ericeira, em 1844! Ora vejam como isto muda; o forte está em grande parte destruido, a escarpa tem falhado em muitas partes, desappareceram as navegações longinquas, diminuiu a pescaria em muito, e o pinhal dos frades perdeu as arvores venerandas.

O rei da Ericeira

Vou transcrever do Portugal cuidadoso e lastimado do padre José Pereira Bayão (paginas 732-734), a narrativa do caso estranho do rei da Ericeira; um dos varios episodios da nevrose, naturalissima, que assaltou o povo portuguez nos primeiros annos da dominação hespanhola. Este, a meu ver, é dos que melhor representa o estado ancioso e tumultuario das almas; ha n’elle o mysticismo, o vago anceio, o estonteamento no começo, inconsciente, ingenuo; depois a exploração d’esses sentimentos pelo espirito patriotico, e pela influencia do meio, que leva a incidentes comicos, á desordem, á loucura sinistra, ao crime; logo, naturalmente, á intervenção da politica dominante, á força, até ao final do morticinio em massa, e do supplicio tremendo.

==Succedeu isto no anno de 1584, no mez de julho, e podendo servir de exemplo (refere-se ao caso do rei de Penamacor) para emenda de outros taes atrevimentos, foi ao contrario; pois logo no anno seguinte se viu outro ainda mais estravagante pelos mesmos termos, fingindo-se ser el-rei D. Sebastião, um moço chamado Matheus Alvares, natural da ilha Terceira, filho de um pedreiro, o qual saindo-se do noviciado dos frades arrabidos do mosteiro de S. Miguel junto á villa de Obidos, se fez tambem hermitão em uma ermida de S. Julião, junto á villa da Ericeira. Aqui fazia uma vida ao parecer mui penitente, e se introduziu a ser rei antes que ninguem o imaginasse; disciplinava-se fortemente onde pudesse ser ouvido, e dizia com triste lamentação: Portugal, Portugal, que é feito de ti, que eu te puz no estado em que estás, oh! triste de ti Sebastião, que toda a penitencia é pouca em respeito de tuas culpas. Começaram alguns a crer, que elle era el-rei; e entre elles um lavrador rico chamado Pedro Affonso; juntaram-se até oitocentos homens, de que se fez general, accrescentando ao seu nome o apellido de Menezes; poz o fingido Rei Casa Real, e fortificou-se, casando-se com uma filha do dito Pedro Affonso, moça bem parecida, coroando-a como Rainha, com uma corôa de prata de uma imagem de Nossa Senhora, fazendo marquez de Torres Vedras a seu pae, e conde de Monsanto, Senhor de Cascaes, e alcaide mór de Lisboa.

E assim fazia outras mercês, passando provisões e alvarás com solemnidade de sellos reaes, occultando-se sempre, e mostrando-se a mui poucos por grande favor, aos quaes contava algumas particularidades da batalha, para os ter mais seguros n’esta presumpção, e mandando recado a D. Diogo de Sousa, general da armada, que lhe fosse fallar; tanto que soube, que elle perguntára ao mensageiro pelo signal, que lhe déra, receando-se que se descobrisse o engano, ou por outra alguma razão, que não consta, lhe tornou a mandar dizer, que não fosse; e comtudo indo lá, lhe não quiz fallar, dizendo, que o fazia assim porque não ia só.

Escreveu depois ao cardeal Alberto, que lhe desoccupasse o seu paço, e se fosse embora para Castella: porque já era tempo de que abrissem os olhos tantos enganados.

Foi preso o embaixador; e soltando-o logo cobrou mais forças a opinião de ser elle el-rei, por onde, o que assim se fingia se foi ensoberbecendo, e fazendo alguns graves castigos em todos aquelles, que o não queriam reconhecer, e lhe negavam a obediencia, sendo executor o marquez, seu sogro, que era homem cruelissimo, e deshumano; e agora muito mais com a vangloria dos titulos que lhe foram dados, e considerar-se sogro de el-rei.

Vendo o Cardeal Governador que se devia atalhar tão grande desordem antes que passasse a mais, deu ordem ao corregedor de Torres Vedras para que os fosse prender, e querendo-o executar foi morto arrebatadamente com os seus officiaes por aquella gente, que os seguia: e sendo isto reprehendido por Gaspar Pereira, ouvidor d’aquella comarca, o mataram tambem; e a um filho, e a um sobrinho; saqueando-lhe a casa como em guerra justa; passando já n’este tempo de mil a gente asoldada que o seguia: vindo todos a comprar polvora e bala á cidade, diziam publicamente, que era para acompanhar a el-rei D. Sebastião.