O que me chama a attenção na descripção de Mafra, feita por tal authoridade em 1712 (isto é em 1709, porque 1712 é a data da impressão) é que nesse tempo, em que se conservavam ainda vigorosas as antigas instituições, no termo da villa de Mafra a freguezia mais importante era a de Santo Isidoro; e que o seu parocho curado era apresentado pelos moradores. Isto mostra que esta freguezia ou parochia era uma entidade muito sobre si: e abrangia um territorio vasto e importante, como o é ainda agora.

Em 1844 temos outra noticia a respeito da Ericeira no famoso Panorama (Serie 2.ᵃ Vol. 3.ᵒ pag. 335).

É um artigo de Henriques Nogueira. Acompanha-o uma gravura ingenua mas curiosa; mostra os rochedos, a alta escarpa, a ladeira que vem ao pequenino porto, as paredes do forte, agora em parte desmoronado, e ao longe a ermida de S. Sebastião.

==Em documentos antigos é conhecida por Oyriceira e Eyriceyra, e d’aqui vem serem as armas do concelho um ouriço.

==Os mais antigos assentos da separação da parochia de Mafra são de 1406. D. João V prestou grande auxilio á reedificação de S. Pedro.

==O estabelecimento mais importante que esta villa possue é a casa da Misericordia a qual foi fundada onde havia uma ermida do Espirito Santo, por Francisco Lopes Franco, em 1678. Este doou-lhe um padrão de juro de 480$000 réis, e os pescadores obrigam-se a pagar-lhe annualmente todo o ganho d’uma rede de pesca, cujo onus solveram pela quantia de 6$400 réis que ainda hoje pagam cada um dos dez barcos de pesca. O rendimento actual (1844) em juros e fóros é de 1:679$700 réis. Despende com encargos pios e despezas do culto 725$300 réis e com o hospital 479$300 réis. O excedente da receita é empregado em esmolas e vestuario aos pobres. Os habitantes empregam-se pela maior parte nas pescarias ao longo do nosso littoral, na costa de Marrocos, e tambem já fizeram tres expedições ao Banco de Terra Nova n’estes ultimos annos (como isto passou!). O numero de embarcações de todos os lotes, incluindo as do commercio de cabotagem é de 98, empregando 670 individuos. A população orça por 2:769 almas com 750 fogos; no principio d’este seculo tinha apenas 600.==(lembro ainda que isto se escrevia em 1844).

==O forte está sobranceiro á calçada que dá para a praia, e hoje acha-se desguarnecido. Segundo se deprehende de uma inscripção sobre a porta foi edificado por D. Pedro 2.ᵒ

==No chafariz chamado a Fonte do Cabo existe uma pedra embutida na parede com um emblema e legenda em caracteres gothicos em relevo, que parece significar: «Feita na era de mil e quatrocentos e cincoenta e sete annos.»

==Ainda existem restos do palacio do senhorio d’esta villa, o conde da Ericeira: pela parte superior de algumas janellas veem-se pedras com um leão esculpido. Estas paredes a que o povo chama o Paço, são dignas de veneração por terem servido de residencia, e quem sabe se de academia, ao nosso douto escriptor D. Francisco de Menezes.

==A meia legua ao nascente d’esta villa está aberta uma mina de barro branco no sitio chamado a Avesseira, que já tem sido explorada por conta das fabricas de louça das Janellas Verdes e Vista Alegre (Actualmente os finissimos barros dos arredores da Ericeira, que eu saiba, são explorados muito rudimentarmente pelos louceiros da Sobreira, Lapa da Serra, etc., que fabricam a louça chamada de Mafra).