E nada da Ericeira; para esse lado, a quem vem de Mafra nem uma casa, nem uma torre de egreja mostra a villa; porque ella está no grande socalco da ribamar; quasi ao terminar a ladeira surge a casaria branca alastrada, projectando-se sobre o oceano.
Ora vamos ouvir o padre Antonio Carvalho da Costa, bom author que eu sempre recommendo, na sua mui excellente «Corografia portugueza, e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal», impressa em 1712: escreve o prestimoso clerigo e mathematico lisbonense, a pag. 42 do tomo terceiro:
Da Villa da Eyriceyra
Uma legua ao noroeste de Mafra (será escusado lembrar que havia então leguas pequenas, e leguas da Póvoa), tres ao sudoeste da villa de Torres Vedras, e sete ao Sul de Peniche, tem seu assento a villa da Eyriceyra, a quem banham pela parte do occidente as salgadas e ceruleas aguas do cubiçoso Oceano, que a faz abundante de bom pescado e excellente marisco, especialmente eyriços, donde a villa tomou o nome, o que approvam suas armas, que são um eyriço em campo branco.
Elrei D. Diniz lhe deu foral (o primeiro foral é mais antigo), que confirmou depois elrei D. Manuel, fazendo doação della ao infante D. Luiz seu filho, de quem a herdou o sr. D. Antonio, seu filho illegitimo, ao qual (sendo expulsado da successão do reino por el Rei D. Fillippe o de Castella, e vencido na ponte de Alcantara pelo duque de Alba, que com poderoso exercito entrou neste reino) lhe confiscaram todas suas rendas, e entre ellas a villa da Eyriceyra, a qual deu em satisfação de divida a Luiz Alvares de Azevedo de juro, e herdade para elle, e seus descendentes, com que ficou excluida da Corôa, como bens patrimoniaes; e pertencendo ella a uma sua filha, religiosa de S. Bernardo no mosteiro de Odivellas, a vendeu a abbadessa por 8:000 cruzados a D. Diogo de Menezes com todas suas rendas e direitos reaes, e a quinta parte do morgado da villa de Mafra, e a vintena do peixe, que se paga aos senhores da dita villa, que é em todas as partes em que fóra della pescam seus naturaes, mui exercitados neste officio.
Tem 250 visinhos com uma egreja parochial da invocação de S. Pedro, curado, que apresenta o conego da Sé de Lisboa, o qual tambem apresenta a vigairaria de Mafra: tem mais Casa da Misericordia, e estas ermidas, o Espirito Santo, Nossa senhora da Boa Viagem, S. Sebastião, e S. Martha, e ha nesta villa tres fontes perennes.
Assistem ao seu governo civil um ouvidor posto pelos condes (que nesta terra tem os oitavos do pão e vinho), dois vereadores, um procurador do conselho, um escrivão da Camara annual, que o é tambem da almotaçaria, outro escrivão dos orfãos, que o é tambem dos direitos reaes e do judicial e notas. Tem uma companhia da Ordenança, e um forte com cinco peças de artilharia, que sustentam os moradores, e os condes consultam o governador. É hoje senhor e conde desta villa D. Francisco Xavier de Menezes, cuja illustre varonia é a seguinte:==e segue uma noticia da genealogia d’essa bella familia dos condes da Ericeira, D. Diogo de Menezes, 1.ᵒ, D. Fernando de Menezes, 2.ᵒ, D. Luiz de Menezes, 3.ᵒ, D. Francisco Xavier de Menezes, 4.ᵒ, série brilhante na fidalguia portugueza.
Foi este ultimo que animou Carvalho da Costa a escrever a sua chorographia que tantos serviços presta ainda agora.
A respeito da villa de Mafra conta-nos Carvalho da Costa: o seu termo é abundante de pão, gado, e caça: tem uma egreja parochial dedicada a S. Izidoro, curado, que apresentam os moradores (note-se isto, eram os moradores que apresentavam o cura), os quaes passam de cento e sessenta divididos por estes lugares, Azambujal, Quintal Gonçalvinhos, Grocinhos, Lombo da Villa, Almada, Ribeira, Murteira, Pinheiro, Murgeira, Cachossa, Roxeira, Amoreira, Póvoa, Valle de Carreira, Caeiros, Fonte Santa, Relva, Sobreiro, Fonte Boa dos Nabos, Figueiredo, Picanceira, Penagache, Lagôa, Montegudel, Ribamar de cima e de baixo, com muitos casaes. Tem mais este termo o forte de Milreu, e o de Santa Susana com duas peças d’artilharia.
A corographia de Carvalho da Costa imprimiu-se em 1712; estava-se longe da importancia posterior de Mafra, realçada pelo seu colossal monumento.