A gente do mar chama-lhe ardencia. Nas noites de 24 e 25 de agosto de 1900 o espectaculo foi admiravel. As grandes ondas luminosas, de brilho e intensidade differentes, produziam effeito phantastico. Durou muitas horas o esplendido aspecto do mar, especialmente na arrebentação.
Em setembro de 1902 tambem houve ardencia, mas fraca e durando apenas umas tres horas. No livro de A. F. Simões: Cartas da beira-mar, descreve-se um caso de ardentia ou ardencia observado por elle na Figueira da Foz no mez de setembro de 1864.
Cartas nauticas.—Conversando uma vez a respeito de antigas cartas nauticas, indicaram-me uma senhora que possuia algumas, de parentes que tinham navegado em largas viagens. Eu pedi o favor de as vêr.
Um dia, na sua casa de jantar, escolhida por ser mais facil na grande meza desdobrar as cartas maiores, a senhora D. Maria disse á serviçal que fosse lá acima, ao quarto do Oratorio, buscar as pastas e os rolos, forrados de linhagem.
A creada voltou ajoujada porque era pesado o fardo da papelada. Eram as cartas que tinham servido ao avô, ao pae, aos tios e aos irmãos na vida maritima, porque durante gerações, n’aquella familia, fôra tradicional a vida do mar; ora de pilotos, ora de capitães de navio, muitos dos parentes daquella senhora fizeram longas viagens. As cartas usadas, amarelladas, conservavam o cheiro a breu; tinham as rotas marcadas a lapis, em linhas onduladas ou em zig-zagues, com pequenas cruzes e datas, nas mudanças dos rumos ou marcando singraduras; viagens da Ericeira para Larache ou Casa Branca na costa marroquina, á Terra Nova, á Irlanda, ou de Lisboa para o Brazil, Açores, Madeira, por essa costa d’Africa fóra, ou entre o Funchal e Demerára.
Ha coisas d’estas, ás vezes; começa-se por simples curiosidade, entre phrases banaes e logares communs, e de subito surge o drama. Se eu visse aquellas cartas n’uma loja nada sentiria, mas lentamente mostradas pela santa mulher! Eu ia dizendo o que via e lia, e ella ia lembrando. A carta passou a ser um documento vivo. E quanto mais recordava mais subia a commoção, avivavam-se saudades, as lembranças de anciedades passadas, as longas espéras de noticias. Certa cruz marcava um grande golpe de mar, outra o sitio em que faltou agua de beber, e a comida; esta agora um incendio a bordo.
De uma vez não houve noticias do parente nem do navio por mais de seis mezes.
Eu dobrava ou enrolava lentamente a carta, e passava-se a outra. Agora era a que servira a bordo do palhabote onde o irmão ia por piloto na sua primeira viagem, e surgiam outras recordações.
Desdobrava-se nova carta, era a de um segundo tio, capitão do navio tal, que andou trinta annos no mar, soffrendo vendavaes e calmarias, e terminou em naufragio em longinqua paragem.