E assim estivemos a ver cartas, algumas horas, e a lembrar anciedades passadas; saudades, receios, que é o manjar de quem tem parentes queridos no mar. Depois a serviçal foi levar, com muita cautella, como cousas sagradas, a pasta e os grandes rolos para o quarto de cima, ao pé do Oratorio.
Os primeiros christãos.—As duas inscripções romanas que ainda hoje felizmente se conservam em S. Miguel de Odrinhas teem servido de base a dissertações de auctores considerados sobre o apparecimento do christianismo n’esta região a norte de Lisboa. Principalmente a do Seneca.
O nosso D. Rodrigo da Cunha na Historia ecclesiastica da egreja de Lisboa, disserta sobre a pregação de S. Pedro de Rates pela beira mar até Cintra, e dá muita attenção ás duas inscripções romanas.
A razão de julgar que taes inscripções commemoram pessoas christans é porque lhes falta o D. M. S. (consagrado aos deuses manes), inicio vulgar dos lettreiros pagãos.
Base ou principal ponto de partida a respeito da existencia de christãos logo no 1.ᵒ seculo, neste extremo da peninsula, é a chronica de Flavio Dextro, que diz: Lucius Seneca Centurio verus christianus Sintriae occumbit. (Ann. Chr. 50).
Numa edição de 1619, vê-se Senticae, emendado para Sintriae na edição de Leão (Lugduni, 1627 pag. 103).
Ora esta chronica de ha muito está mal afamada, mas percorrendo-a quasi me convenço de que merece alguma attenção; parece-me um texto antigo muito alterado e interpolado.
Ambrosio de Morales, continuador de Floriam de Ocampo, na Coronica general de Hespana (Alcalá de Henares, 1575, 2.ᵒ vol. pag. 245 e segg.) consagra um capitulo a esta questão:==El tiempo del Emperador Neron con todo lo de Seneca (Lib IX. C. 9) e reproduz a inscripção grande de Odrinhas. Não acho base alguma para affirmar a existencia de christãos logo no primeiro seculo no occidente da peninsula; porque é certo que os lettreiros sepulcraes de individuos christãos começam muito mais tarde; lendas, tradições devotas, sim; mas é difficil tambem marcar datas á creação de lendas piedosas.