+Prólogo+
Prólogo
SENHORAS E SENHORES:
_Em a noite de 8 de junho de 1502, nesta cidade de Lisbôa, e na própria câmara da rainha, nasceu o teatro nacional. Nessa noite, mestre Gil,
um que não tem nem ceitil e faz os aitos a el-rei,
representou, em castelhano, o seu «Monólogo do Vaqueiro», ou da «Visitação», que ides ouvir, vertido á letra, em português.
Muito antes de Gil Vicente,—certo é e convem recordá-lo—o povo representava nas igrejas, na largueza dos seus adros ou á sombra das suas naves, os entremeses hieráticos do nascimento e da Paixão de Christo e das vidas dos santos, e cantava os seus vilancicos, bailando suas dansas e folias. Mas o «Monólogo do Vaqueiro», naquela noite memoravel,—que vamos procurar reconstituir—começou a fixar e a ordenar o elemento dramático tradicional, dando-lhe vida eterna.
«A obra de devoção seguinte—diz a rúbrica de Gil Vicente—procedeu de uma visitação que o autor fez ao parto da muito esclarecida rainha D. Maria, e nascimento do mui alto e excelente príncepe D. João, o terceiro em Portugal de este nome.»
E foi—continua a rúbrica—«a primeira coisa que o autor fez e que em Portugal se representou, estando o mui poderoso rei D. Manuel, a rainha D. Beatriz, sua mãe, e a senhora duquesa de Bragança sua filha, na segunda noite do nascimento do dito senhor.»
«E estando esta companhia assim junta—conclue a rúbrica—entrou um Vaqueiro…»