Em 1833 foi que começou o verdadeiro poder de Rosas. No seu primeiro governo, cheio de dissimulação, não tinha apresentado os seus instinctos de crueldade, que fizeram depois d'elle uma celebridade de sangue. Este primeiro periodo não tinha sido marcado senão pelo fuzilamento do major Monteiro e dos prisioneiros de S. Nicolau. Comtudo não devemos esquecer que foi n'esta época que tiveram logar muitas mortes sombrias e subitas, d'essas mortes de que a historia inscreve a data com tinta encarnada no livro das nações.
D'esta maneira desappareceram dois chefes de que a influencia poderia fazer alguma sombra a Rosas. As mortes de Arbolito e de Molina tiveram logar n'esta época. O mesmo aconteceu, segundo nos parece, aos dois consules que acompanharam Octavio na sua primeira batalha contra Antonio.
Daremos mais alguns detalhes de Rosas que ainda não nos appareceu senão como dictador, mas tendo já alcançado um poder como poucos homens tem exercido n'uma nação.
Em 1833, Rosas contava trinta e nove annos. Tinha o aspecto europeo, cabellos louros, olhos azues, e uma presença soffrivel. Não usava nem de barbas, nem de bigodes. O seu olhar seria bello se se podesse examinar, mas Rosas havia-se habituado a não olhar de frente, nem os seus amigos nem os seus inimigos, porque sabia que n'um amigo existe quasi sempre um inimigo disfarçado. A sua voz era doce, e, quando tinha necessidade de agradar a sua conversação tinha muito de attrahente. A sua reputação de cobarde é proverbial, e a de esperto é universal. Adorava as mystificações, sendo esta a sua grande occupação antes de se entregar aos negocios serios. Uma vez chegado ao poder, não foi senão uma distracção, que eram brutaes como a sua natureza.
Citemos um ou dois exemplos:
Uma tarde que devia jantar na companhia de um dos seus amigos, occultou o vinho destinado a beber-se e deixou unicamente no bofete uma garrafa do famoso licor de Leroy, que para ser completamente celebre só lhe falta ser descuberto no tempo de Moliere. O amigo procurando o vinho só achou a garrafa de Leroy e encontrando-lhe um gosto mui agradavel, bebeu-a toda. Rosas não bebeu se não agua, e partiu logo que acabou o jantar para a sua estancia.
Durante a noite o amigo de Rosas soffreu dores infernaes. Rosas riu muito d'este seu innocente brinquedo, se elle tivesse morrido, Rosas teria, sem duvida, rido muito mais.
Quando recebia algum cidadão em uma das suas estancias, fazia-o montar em cavallos muito fogosos e a sua alegria era conforme a gravidade da queda que o cavalleiro dava.
No palacio do governo achava-se sempre rodeado de loucos e de imbecis, e no meio dos negocios mais serios conservava este singular cortejo. Quando sitiava Buenos-Ayres, em 1829, tinha a seu lado quatro d'estes pobres diabos, que havia feito monges, tornando-se em virtude do seu poder, seu prior. Chamavam-se frei Biqua, frei Chaja, frei Lechuza, e frei Biscacha. Rosas gostava muito de confeitos, tendo-os sempre de todas os qualidades na sua tenda.
Os monges que tambem gostavam muito de confeitos, roubavam alguns de quando em quando. Rosas então chamava-os a todos e os monges que sabiam o que lhe custaria a mentir, confessavam o crime.