O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar lançar á agua. Quem sabe se apesar do seu desejo teria podido executar a sua promessa. O meu cadaver serviria então para matar a fome a algum lobo marinho, ou caiman. Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que era a minha unica esperança!
Quem diria ao meu caro Luiz que antes d'um anno era eu que o veria rolando pelos cachopos, desapparecer no mar, e que procuraria debalde o seu cadaver, para cumprir a promessa que elle me havia feito, de o sepultar na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz que o recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz! durante a minha longa e cruel enfermidade fostes tu que tivestes sempre por mim um carinho paternal.
XIII
LUIZ CARNIGLIA
Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque é um simples marinheiro não lhe hei-de dedicar algumas linhas? Porque elle não é... Oh! posso assegural-o, a sua alma era bastante nobre para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da morte, era Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação e paciencia de um anjo não se affastava de mim um instante senão para ir chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe as lagrimas piedosas que me consagrou.
Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. Não havia recebido instrucção litteraria, mas suppria esta falta por um maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos que são necessarios aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo de referir, foi a elle que principalmente devemos o não ter cahido nas mãos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida, possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os melhores filhos da nossa desgraçada patria teem morrido como este em terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por elles!
XIV
PRISIONEIRO
Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados de Luiz Carniglia.
No fim d'este tempo chegámos a Gualeguay.
Tinhamos encontrado na embocadura do Ibiqui, um navio commandado por D. Lucas Tantalo, excellente homem que teve toda a sorte de cuidados por mim prestando-me o que julgava ser-me util na minha posição.
Acceitámos os seus presentes com grande prazer, porque não tinhamos a bordo senão café que era o nosso unico alimento. Davam-me pois café a todos os momentos sem se importarem se isso era ou não conveniente para a minha doença. Comecei por ter uma febre assustadora acompanhada por uma grande difficuldade de engolir fosse o que fosse, o que não admirava, porque a balla atravessando-me o pescoço de lado a lado tinha passado entre as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos oito dias n'este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo grandes melhoras.