No mesmo momento os setenta e tres homens que tinham resistido a quinhentos com tanta coragem que se podia dizer que haviam sido os vencedores, tomáram medo e começaram a fugir dispersando-se de tal modo que foi uma felicidade o não ter algum dos nossos acordado o inimigo dando-lhe o signal de alarme.
Consegui com muito trabalho reunir alguns d'elles ao qual pouco a pouco se foi juntando o resto, de modo que ao raiar da aurora estavamos na aurela da floresta dirigindo-nos para as Lages.
O inimigo que não havia dado pela nossa fuga, procurou-nos inutilmente no dia seguinte.
No dia do combate o perigo tinha sido grande, a fadiga enorme, a fome imperiosa, a sede ardente, mas era necessario combater, combater pela vida e esta idéa dominava todas. Mas uma vez na floresta tudo mudou. Faltavam todas as coisas e a miseria não tendo a distracção do perigo fez-se sentir terrivel, cruel, insupportavel. A falta de viveres, o abatimento de todos, as feridas de alguns, e a carencia dos meios de as tratar, lançaram-nos na desanimação.
Ficámos quatro dias sem encontrar senão raizes e julgo desnecessario descrever a fadiga que tivemos para achar n'esta floresta um caminho onde não existia o mais pequeno atalho e onde a natureza mui fecunda faz a cada passo encontrar barrancos enormes.
Alguns dos meus homens desertaram desesperados e tivemos grande trabalho para os juntarmos e impor-lhes respeito. Não existia senão um unico recurso para dissipar esta desanimação e fui eu que o encontrei. Disse a todos que lhe dava a liberdade de se retirarem para onde quizessem, ou de continuarem a marchar unidos e em corpo, protegendo os feridos e defendendo-se mutuamente. O remedio foi efficaz. Desde que cada um foi livre de fazer o que quizesse ninguem pensou mais em desertar e a confiança voltou a todos.
Cinco dias depois do combate encontrámos uma picada, atalho de largura d'um homem, e raras vezes de dois que nos conduziu a uma casa onde nos refrescámos matando dois bois.
Continuámos o nosso caminho para as Lages onde chegámos n'um dia de perfeito inverno.
XXX
ESTADA NAS LAGES E NOS ARRABALDES
Este bom paiz das Lages que nos tinha festejado tanto, quando eramos victoriosos, havia quando recebeu a noticia da nossa derrota mudado de opinião, e alguns dos mais resolutos tinham restabelecido o poder imperial. Estes fugiram á nossa aproximação, e como a maior parte d'elles eram negociantes, tinham deixado os seus armazens providos de muitos objectos. Foi uma providencia, por que julgámos poder sem remorsos aproveitar-nos das mercadorias dos nossos inimigos, e graças á variedade do commercio que exerciam melhorar muito a nossa posição.