Fiz um exforço sobre mim. Medico habituado á morte, não queria ser por ella vencido.

Pousei a lampada sobre um dos degraus do altar, volvendo os olhos para o rosto do morto, olhando-o tristemente: estava mais pallido que o panno que o cobria.

Procurei e toquei suas feridas. Teria querido guardar as ultimas gotas de sangue de seu coração para as levar a sua mãe, e para fazer com este sangue uma cruz sobre o rosto de todos os jovens italianos, que um dia devem levantar-se para o libertamento da sua patria.

Cortei uma madeixa de seus cabellos. Talvez elle tivesse um amigo: com certesa tinha uma mãe.

Emfim apertei-lhe a mão; descobri uma derradeira vez a minha cabeça ante elle e murmurei:

—Até á vista!

Sahi transido da egreja, levando este espectaculo de morte exactamente copiado em mim, que hoje, onze annos depois escrevendo estas linhas, vejo ainda o cadaver, a figura pallida, no seu lençol todo cheio de terra e sangue.

Sahindo encontrei o guarda, depois o official, ao qual apertei a mão sem poder pronunciar uma palavra.

No dia seguinte o cadaver de Morosini foi deposto n'um caixão de chumbo, esperando o momento da partida para o solo natal com os cadaveres dos seus inimigos.

Todos nós desejavamos com egual ardor ter pormenores sobre a morte de Morosini; mas os mais eram obrigados a partir. Ficavam só os mortos, e os que ajudavam os feridos a morrer.