Illustrissimo Senhor,
De Virtudes mui perfeito,
Vós deveis de ser eleito
De todas as Leis dador.
Deos vos deu tanto primor,
Que não se acha em vossa marca
Mais subido Patriarcha,
De nobre Gente Pastor.
Determinei de escrever
A minha çapataria:
Por ver Vossa Senhoria
O que sahe de meu cozer.
Que me quero entremeter
Nesta obra, que offereço
Porque saibão o que conheço,
E quanto mais posso fazer.
Sahirá de meu cozer
Tanta obra de lavores,
Que folguem muitos Senhores
De a calçar, e trazer.
E quero entremeter
Laços em obra grosseira,
Quem tiver boa maneira
Folgará muito de aver.
Cozo com linho assedado,
Encerado a cada ponto;
Cozo meudo sem conto,
Que assim o quer o calçado.
Se vier algum avizado
Requerer algumas solas,
Eu as corto sem bitolas,
E logo vai sobresolado.
Tambem sou official:
Ás vezes cozo com vira,
E sei bem como se tira
O ganho do cabedal.
Se vier algum zombar
Fazer me qualquer pergunta,
Dir lhe hei, como se ajunta
A agulha com o dedal.