Gregorio de Mattos foi, como se sabe, o primeiro que introduziu na poesia portugueza o verso decasyllabo, que por isso ainda hoje é conhecido nos tractados de poetica sob o nome de verso gregoriano, ainda que o nosso poeta não fosse verdadeiramente o seu inventor, pois havia muito tempo que d’elle usavam os italianos, de quem Gregorio de Mattos o tomou, não deixando com isso de fazer um bom serviço ao mechanismo da poesia portugueza. Marinicolas—é a producção caracteristica dos versos decasyllabos, á que me refiro, famosa satyra que tanto celebrisou o notavel satyrico brazileiro.

Conhecido como deve ser o nosso Mattos, tornar-se-ha elle tão popular, como o fôra no seu tempo, não só em todo o Brazil, onde a sua fama chegou a todos os seus recantos, como em Portugal. Gregorio de Mattos pertence á litteratura de dois povos. Costa e Silva chamou-o Rabelais portuguez; antes, porém, já o sñr. J. Norberto o chamára o Juvenal brazileiro.

As obras de Gregorio de Mattos foram sempre muito apreciadas dos curiosos e amadores da boa poesia; pena é, porém, que o poeta descaia ás vezes em phrases e termos poucos decorosos, que não podem passar pelos olhos de todos e são obrigados a ficar ineditos. Posto que as suas composições fossem escriptas ha dois seculos, muitas d’ellas são e serão incontestavelmente de todos os tempos, pelo interesse geral que offerecem todas.

Os seus criticos são accordes em affirmar que a sua linguagem é rica, especialmente em termos e locuções populares e familiares, fluente, correcta e quasi sempre harmoniosa, e que as suas pinturas são vivas, profundos e penetrantes os seus golpes satyricos, e inexhaurivel a sua graça. Gregorio de Mattos é pois um poeta classico e dos mais auctorisados na linguagem portugueza.

Thomaz Pinto Brandão, o celebre poeta portuguez que «vivendo de alegrar a gente, morreu de fome», como elle proprio o diz, foi seu discipulo e com elle veiu em 1681 para o Brazil, quando o dr. Guerra estava despachado para a Bahia. O biographo de Th. Pinto Brandão diz que «influiu nelle Gregorio de Mattos o seu espirito agudo e picante, a que o seu perspicaz engenho soube illuminar com um emphasi especifico, que brilhava não só nas suas composições, mas nos seus dictos.»

Thomaz Pinto, falecido em 1743, parece que nunca esqueceu o seu mestre e amigo Gregorio de Mattos, e em 1713 invocou a alma do poeta bahiano e deu-nos a Satyra feita a todo o Governo de Portugal por Gregorio de Mattos ressuscitado em Pernambuco em 6 de Agosto de 1713. Consta de 40 strophes e é imitada da satyra de Mattos que tem por titulo Justiça que faz o P na honra hypocrita pelos estragos que anda fazendo na verdadeira honra, e que começa:

Uma cidade tão nobre,

Uma gente tão honrada,

Veja-se um dia louvada

Desde o mais rico ao mais pobre: