Ninguem ha, pois, que cultive as lettras no Brazil, que não encontre logo occupando nellas um logar proeminente o nosso Gregorio de Mattos, pelo seu estro gigantesco, pela originalidade das suas producções satyricas, pelos seus rasgos admiraveis. O seu nome, apezar de decorridos quasi dois seculos depois da sua morte, é ainda hoje apregoado como um dos mais valentes cooperadores das litteraturas de dois povos e da lingua portugueza fallada no Brazil. Movido por estes dois pontos de vista decidi-me a publicar as suas obras. Si todas as suas producções são realmente de verdadeiro merito, não o saberei eu dizer; e, quando por ventura não n’o tenham, fica explicada a razão por que encetei a publicação de escriptos de um auctor que fazia timbre em criticar, não a todos nem a tudo, como geralmente se diz, mas áquelles que se deslisavam dos seus deveres, ou que o provocavam com motejos e escriptos pregados pelas praças, e aquillo que julgava no seu esclarecido entendimento andar fóra da razão e da justiça. Moralisar os viciosos, ridicularisar certos usos e costumes desregrados, retratar ao vivo certos personagens, era o fim principal do poeta.

Como disse, até então poucas producções do notavel poeta lograram ver a luz da publicidade; agora, porém, vamos ter uma collecção, ainda que incompleta, das poesias de Gregorio de Mattos, o Bocca do Inferno, nome pelo qual era mais conhecido no seu tempo, pela vehemencia e mordacidade das suas engraçadas satyras, que produziam um effeito extraordinario no espirito dos seus conterraneos, e não menos produzirão ainda hoje com a sua vulgarisação pela imprensa.

Como é sabido, notava-se nos tempos coloniaes o desgoverno do Brazil; tractava então cada um de seguir a sua conveniencia, gemesse quem gemesse, e com o apparecimento das satyras do nosso poeta notou-se que de algum modo moderaram os viciosos os seus desregrados costumes: d’ahi veiu a dizer o grande padre Antonio Vieira que maior fructo faziam as satyras de Mattos que as missões de Vieira, de onde se infere que não foram poucos os serviços prestados pelo vate bahiano ao então nascente Brazil, concorrendo com a sua veia satyrica para o saneamento moral da patria. Já de Eusebio de Mattos, irmão do poeta, havia affirmado o mesmo padre Vieira «que Deus se apostára em o fazer em tudo grande, e não fôra mais por não querer.»

Gregorio de Mattos, apezar de ter feito da sua vida um verdadeiro romance, cheio de peripecias singulares, de inimitaveis rasgos e de desvarios e desregramentos, fustigou os vicios e expoz ao ridiculo as vaidades e desconcertos do seculo em que viveu e poetou, entresachando as suas satyras de um tiroteio de chistes e descripções picantes, que as tornavam muito lidas e faziam com que gyrassem em cópias manuscriptas, ás centenas, pelas mãos dos curiosos.

Um dos maiores senões das satyras que não versam sobre a critica dos vicios e a censura dos costumes em geral, é devido a ignorar-se mais tarde quasi tudo o que nellas se diz, o que realmente faz com que percam muito do seu sal e valor.

Para o tempo em que correm ainda quentes são de effeito immenso, porque todo o mundo conhece as baldas do criticado e a exacção do satyrico, não lhe escapando as menores circumstancias, que entretanto mais tarde se tornam inteiramente extranhas. D’ahi nascia a avidez com que as satyras de Mattos eram lidas, relidas ás vezes, ante um num eroso auditorio e copiadas com sofreguidão no tempo. O proprio governador da Bahia d. João de Alencastro, a quem se deve o desterro de Mattos, tinha um livro especial em que com esmerada lettra mandava registar as producções do nosso poeta, com mais cuidado e correcção talvez do que as suas mesmas cartas de officio para a côrte: quando porém a musa satyrica lhe entrou por casa sem pedir licença, foi o poeta traçoeiramente prêso e por ordem sua desterrado!

Mas Gregorio de Mattos não foi só poeta satyrico: ha composições suas notaveis e distinctas, não só por terem sahido fóra do seu habito de compor, como porque tractam de tornar salientes as virtudes e merito de algumas pessoas e dignidades da sua patria: d’aqui se conclue que reconhecia elle a virtude, onde quer que a achasse, e que si não era virtuoso, tinha probidade e honra, e a não serem exactas as suas palavras, é certo que elle não exaltaria meritos, si realmente os não encontrasse, pois, como se sabe, o poeta não perdia vaza, e folgava de ter occasião de jogar a sua setta vehemente e ferina contra esta ou aquella pessoa, logo que o merecesse, fosse grande ou pequeno, branco ou preto.

D’aqui vem o dizer-se que Gregorio de Mattos estragava a sua musa delicada com assumptos pouco dignos de um poeta; porque depois que acabava de retratar fielmente um governador e capitão-general, um vice-rei, uma alta dignidade ecclesiastica, descia a photographar a largos traços pessoas inteiramente obscuras e collocadas muito baixo na escala social.

Accresce ainda que ha poesias de Gregorio de Mattos sobre objectos differentes, repassadas do mais fino e delicado lyrismo, e algumas de assumptos religiosos, que certo não são as suas menos estimaveis obras, e bastavam ellas para dar-lhe logar honroso no grande festim da poesia nacional. Tudo isto o que prova? Que a sua musa não tendia só para o comico e satyrico. Na sua alma palpitava fortemente um coração de poeta, e ante as scenas magestosas da natureza, ante a virtude, ante o merito, ante a boa christandade, o seu alevantado espirito não podia de certo ficar calado. Elle era poeta e tinha os olhos fitos no céu e o coração aberto na terra!

As obras de Gregorio de Mattos não são só reservadas aos homens de lettras, como se póde suppor. São destinadas não sómente aos que se dedicam ao cultivo da mais elevada litteratura, como ao povo, para quem em particular escrevia o famoso satyrico. Gregorio de Mattos fazia timbre de ser conhecido e applaudido das turbas populares, tanto que se aprazia em viver entre musicos e folgazões quando estava na Bahia. Escrevia para o povo, mas as suas composições agradavam ao homem mais douto, sabendo assim o poeta a um só tempo deleitar a todos. Por isso muitas das suas poesias não parecem escriptas ha tão longos annos, pela jovialidade que apresentam, pelo enredo de seus dramas, pela agudeza dos seus dictos, pela vivacidade das suas côres.