As almas do outro mundo

Dizem que vão e não vem,

E a minha bandejinha

Será alma tambem?»

Conta-se outra anedocta curiosa passada na cidade da Bahia entre o coronel Sebastião da Rocha Pitta, auctor da conhecida Historia da America Portugueza, e o poeta.

Rocha Pitta era então alferes de infantaria e estava de guarda em Palacio. Acconteceu passar por ali o nosso poeta, e chegou-se a elle o depois historiador brazileiro e lhe disse: Senhor doutor, estou com uma obra entre mãos e para acaba-la, quero que V. M.ᶜᵉ me dê um consoante a esta palavra ==para mim==. Ao que promptamente respondeu Gregorio de Mattos ==Capim==. Rocha Pitta tornou-se então inimigo de Gregorio de Mattos. O auctor da America Portuguesa tambem era poeta e parece que quando ouviu a rima pedida proferida em tom serio e grave pelo espirituoso satyrico, ficou assim meio duvidoso. Provavelmente o proprio Gregorio de Mattos foi quem andou narrando o caso, e d’aqui procedeu todo o odio de Rocha Pitta.

V

A litteratura do Brazil no seculo do seu descobrimento é apenas representada pelo pernambucano Bento Teixeira Pinto, auctor de um poemeto intitulado Prosopopéa, o qual foi impresso em 1601 e reimpresso em 1872 pela Bibliotheca Nacional, á esforços do illustrado sñr. dr. Ramiz Galvão. No seculo immediato, o XVII, entrou então o Brazil a desenvolver-se, e, como era natural, não poucos homens de talento, nascidos no torrão americano, começaram a cultivar as lettras e sciencias em todos os seus ramos.

D’entre os mais notaveis poetas, para só fallar d’elles, destacam-se: Gregorio de Mattos, que já era muito apreciado e applaudido em Portugal; Eusebio de Mattos, Bernardo Vieira Ravasco, Manuel Botelho de Oliveira, Domingos Barbosa, Gonçalo Soares da Franca, Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, naturaes da Bahia; Salvador de Mesquita, Martinho de Mesquita e João Mendes da Silva, do Rio de Janeiro. Os poetas bahianos são, em honra da verdade, os que representam toda a litteratura brazileira durante o XVII seculo: de poucos d’elles porém existem livros impressos em separado, mas das composições de quasi todos subsistem algumas amostras.

De todos estes cantores d’aquelle seculo o mais conhecido e reputado foi incontestavelmente Gregorio de Mattos; corriam de mão em mão as suas numerosas obras, e eram por todos repetidas de bocca em bocca, «desde o palacio á choupana, desde a floresta á cidade.»