Gregorio de Mattos viveu e viveu longos annos; mas si passou a sua mocidade na grandeza e na abundancia, como elle mesmo confessa no soneto que dedicou á cidade da Bahia, quando diz:
Triste Bahia! Oh quão dissimilhante
Estás, e estou do nosso antigo estado.
Pobre te vejo a ti, a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante,
tambem veiu a soffrer na velhice, si por ventura elle a teve; porque o seu espirito era sempre o mesmo, dizia sempre as suas graças com a mesma naturalidade e chiste; quer na ventura, quer na desventura, foi sempre o mesmo homem, o mesmo genio, o mesmissimo caracter. A sua presença quer em Coimbra quer em Lisboa, quer na Bahia, quer em Angola, quer em Pernambuco, que lhe serviu de tumulo, sempre infundiu o mais decidido respeito.
Era um homem reconhecidamente douto e mui versado nas litteraturas italiana e hespanhola, as duas mais em voga no seu tempo. De facto Gregorio de Mattos escreveu poesias em castelhano, algumas das quaes se acharão nos seus logares da presente edição.
Gregorio de Mattos não era um talento commum, nem um simples versejador; foi um genio e soube crear; um d’esses genios raros e extraordinarios, que só apparecem de seculos a seculos, revestidos de todas as galas, e que perduram por todos os tempos, ganhando cada vez mais fama, augmentando cada dia o numero dos seus admiradores e enthusiastas.
Gregorio de Mattos foi um genio e genio creador—torno a dizer; e teria talvez feito uma eschola, si as suas obras tivessem sido publicadas pouco depois da sua morte, quando já não existissem as personalidades retratadas.
Mas teve inimigos poderosos e hereditarios, que o obrigaram a andar mendigando o pão pelas casas dos amigos e que só desejavam dar-lhe cabo da existencia! Foi torturado, não pela Inquisição, como Bocage, mas pelos grandes da sua terra; e os seus dois maiores amigos foram os seus dois maiores traidores! O poeta porém não fraqueou, ganhou antes novas forças, e, despedindo-se da sua Bahia quando seguiu para o seu exilio de Angola, começou dizendo: