Si Gregorio de Mattos não cantou a natureza brazileira tão bellamente recommendada por seu contemporaneo Botelho de Oliveira; si não descreveu os exquisitos fructos indigenas da sua terra, como o fez mais tarde o nosso épico Sancta Rita Durão; si não quiz chamar ao ridiculo a Companhia de Jesus, como o realizára por interesse proprio Basilio da Gama; retratou os vicios e costumes desregrados da sua patria, entrelaçando-os de ditos agudos e picantes. De genio instavel e buliçoso, pouco tempo lhe sobrava para descantar as scenas portentosas da natureza americana, o seu esplendido e formoso céu, as aguas pittorescas e risonhas da sua bahia. Apezar d’isso, e como já disse, ha poesias suas repassadas do mais puro e delicado lyrismo, e que muito o honram e abonam o seu estro.

Gregorio de Mattos foi em vida um homem popular; como poucos, adquiriu esta honraria, tão desejada de muitos; era conhecido por grandes e pequenos, ricos e pobres, e, apezar das suas satyras mordentes e picantes, e, de, ás vezes, empregar expressões menos decorosas nas suas poesias, não deixava todavia de ser respeitado e admirado de quantos o conheciam. Por occasião da sua morte fizeram-lhe um soneto, do qual infelizmente só se conhecem os dois quartetos, que justificam por demais o que fica allegado. Dizem elles:

Morreste emfim, Gregorio esclarecido,

Que sabendo tirar por varios modos

A fama, a honra, o credito de todos,

Desses mesmos te viste applaudido.

Entendo que outro tal não tem nascido

Entre os romanos, gregos, persas, godos,

Que comtigo mereça ter apodos

Nos applausos, que assim has adquirido.