Querem-me aqui todos mal,
Mas eu quero mal a todos,
Elles e eu por varios modos
Nos pagamos tal por qual:
E querendo eu mal a quantos
Me têm odio tão vehemente,
O meu odio é mais valente;
Pois sou só, e elles são tantos.
O odio de Gregorio de Mattos, a que elle proprio se refere, inspirava-o o mais elevado principio—o amor da patria—que é uma das virtudes que mais ennobrecem o coração do homem. O odio do poeta não abrangia a todos, nem a tudo. Soube respeitar e louvar o merito de muitas pessoas do seu tempo; e que as suas satyras tinham grande força e energia prova-o o grande padre Antonio Vieira, quando diz que maior fructo faziam as satyras de Mattos que as suas missões; o que importa dizer que mais valiam as censuras satyricas de um poeta do que as palavras cheias de uncção e de verdade proferidas do pulpito por um famoso orador sagrado.
Comprehende-se d’aqui que o poeta gozava de importancia na boa sociedade dos seus dias, e que as suas satyras eram bem cabidas, salvo um ou outro excesso ou exaggero que nellas se nota proprio dos poetas e romancistas, que têm o direito de engendrar cousas as mais impossiveis, sem todavia se lhes poder exigir contas.