E estarão a trabalhar
Toda a vida, por manterem
Maganos de Portugal.
As famosas bandeiras que em busca de minas partiram da Bahia, levaram o nome do poeta até á Villa Rica de N. S. do Pilar, hoje cidade do Ouro Preto, onde, em homenagem ao famigerado satyrico, denominaram uma das suas ruas Gregorio de Mattos: prova inconcussa de que a sua fama não se circumscrevia só á capitania natal. Esta rua parece que hoje já se acha com o nome mudado. Vi-a indicada em uma Planta de Villa Rica de N. S. do Pilar, trabalho manuscripto que se guarda no Archivo Militar d’esta côrte.
VII
Gregorio de Mattos como linguista presta um auxilio poderoso á linguagem portugueza e brazileira. É elle o escriptor que nos dá idéa mais exacta do modo de fallar e escrever no Brazil no XVII seculo. O seu vocabulario é riquissimo, principalmente em locuções e termos populares, sem exceptuar, já os de origem indiana, já os derivados da lingua africana, e é o unico documento d’aquelle seculo que possuimos neste genero de estudos; o poeta provavelmente não imaginára que viria um dia prestar valioso serviço aos philologos e investigadores das cousas da patria até sob este ponto de vista.
Gostava Gregorio de Mattos de conviver com gente da mais baixa sociedade; mas d’ahi buscava elle elementos para as suas chistosas composições, e por isso nos dá cabal idéa do que era a Bahia, e por conseguinte o Brazil, nos primeiros tempos coloniaes, relatando-nos por miudo os usos, costumes e modo de viver da gente de então.
Gregorio de Mattos é incontestavelmente um dos homens que mais honra fazem á poesia portugueza e brazileira. Nascido em epocha em que o Brazil, mal conhecido, como as inhospitas praias de Angola, servia de logar de exilio e receptaculo dos povoadores das cadêas do Reino, não podia certamente receber na sua terra aquella instrucção que pedia o seu alentado espirito.
Dispondo seus paes de recursos, mandaram-n’o para Coimbra cursar a sua Universidade, onde se formou em leis, e em Portugal passou a mocidade, ganhando sempre a mais merecida e honrosa fama de poeta e jurisconsulto. Quando se resolveu a tornar á patria, já era um homem feito, pois tinha mais de meio seculo de existencia: contava 58 annos.
Quasi velho pela edade, era todavia moço pelo vigor do talento e pela vivacidade e lucidez do espirito. O amor da terra natal agitava-se fortemente no coração do poeta. Em Portugal, Gregorio de Mattos escreveu muito, mas parece que no Brazil, apezar dos poucos annos que nelle viveu, escreveu ainda mais. Aqui nada lhe escapou, não poupando os desconcertos do seu seculo, nem os desvarios das auctoridades civis e ecclesiasticas da sua terra. Notava elle o desgoverno das conquistas da America Portugueza, e derramava então nos seus escriptos uma torrente de satyras, versando sôbre varios assumptos, umas tractando dos vicios e costumes, outras cheias de personalidades, ora em tom serio, ora repletas de chistes agudos e pouco decorosos; mas o certo é que em todas ellas se observa o mais acrysolado amor da patria: