Posto já na obrigação de sustentar encargos de matrimonio, e aberto as portas o escriptorio da vocacia, poucos eram os defendidos, porque a inteireza do seu animo patrocinava sómente a mesma razão em materias civeis, sendo inimigo voraz d’aquelles advogados, que por junctarem cabedal enredam as partes no labyrintho de incertas opiniões. Si algumas vezes defendeu contra o que entendia, eram as causas crimes, onde a summa justiça se reputa por summa iniquidade. Ninguem se acorda que lhe rejeitassem embargos, e toda a materia d’elles se corporisava em quatro palavras d’aquelle espirito laconico, que sem offender gigantes fórmas conseguia a diminuição plausivel das materias, logrando na curta esphera de qualquer laconismo alma substancial, visivel graça, e intelligencia commum, como ninguem. Por exemplo contarei com brevidade alguns casos.
Pleiteava Pedro o cabedal que havia dado com sua filha em dote a Paulo, o qual depois de adornar a defuncta esposa com palma e capella, publicava que havia fallecido intacta. Defendia por parte do auctor o nosso jurista, e provada legalmente razoou o feito com ésta vulgaridade:
Gaita de folles não quiz tanger,
Olhe o diabo o que foi fazer.
Banhou-se em aguas de flor o patrono adverso accusando de ridicularia indecente este razoado na extensa formalidade do seu: mas um e outro Senado confirmando aquella sentença, veiu a conhecer o que realmente passava; e foi que o doutor Mattos fallando pouco para merecer o menos, dizia muito para conseguir o mais.
Outro laconismo se nos envolve na historia de um religioso, para cuja intelligencia já dissemos o grande aborrecimento que tinha a todo o fingido. Venerava os religiosos verdadeiros tanto quanto abominava os que com este sancto titulo apenas merecem o nome de frades. Elle o diz com graça nestes versos:
Se virdes um dom abbade
Sôbre o pulpito cioso,
Não lhe chameis religioso,
Chamae-lhe embora de frade.