Um d’estes frades pois se valeu do doutor Mattos, pedindo embargos para seu sobrinho, sentenciado á morte natural por haver furtado a naveta da sua sacristia. Mas elle absolutamente o desenganou que não estava em hora de o servir. Instava o religioso por saber ao menos a razão da difficuldade, e comtudo não poderei eu doirar a pilula da resposta. «É (dizia elle) que neste instante se foi d’aqui Maria de S. Bento muito agastada, e fez aquella cruz na minha porta em juramento de não entrar mais por ella.» «Ila-hei buscar (tornou o religioso), si nisso está o valer-me V Mᶜᵉ.» E logo foi representar á mulata quanta necessidade tinha de leva-la a quebrar o seu juramento. Caprichosa era ella, mas em tal caso caritativa accompanhou o triste pretendente, e posta já na presença d’esse singular e exquisito genio, ouviu que lhe dizia assim: «Não eras tu, ridicula, quem fez aquella cruz de aqui não tornar? Bem se vê que morrias por esta introducção. Ora vae, que agora te mando eu.» Foi-se a mulata exhalando veneno pelos olhos; e á vista dos autos fez elle a seguinte trova por embargos:
A naveta, de que se trata,
Era de latão, e não de prata.
Á vista dos autos digo, porque o processo nelles estava em termos de lhe valerem, como valeram, ganhando sempre applausos pela attenção com que examinava os menores incidentes.
Com a folhinha do anno livrou a outro condemnado, contra quem as testemunhas com verdade haviam jurado de vista sôbre um furto de noite escura, a peditorio de seu amigo João dos Reis, mordomo então da Misericordia.
Um homem de baixa esphera, que por aquella iniquidade a que no Brazil chamam fortuna, subiu a desconhecer seu amo, comprando a vara de Juiz Ordinario na villa de Igaraçú em Pernambuco, fez um auto criminal contra este, por lhe haver chamado por Vós, como antes de o ver Juiz costumava. Defendia o nosso jurista ao réu, e confessando a culpa, mostrou que o não era, começando as razões com este argumento:
Si tractam a Deus por tu,
E chamam a El-Rei por vós,
Como chamaremos nós
Ao Juiz de Igaraçú?