Tu e vós e vós e tu.

Estas e outras obras de mais agigantado peso no seu officio canonizaram o doutor Gregorio de Mattos pelo melhor jurista; de sorte que no dia de sua morte disse o Ouvidor de Pernambuco, que lhe não era affeiçoado: «Já morreu quem entendia o direito.» Mas si o dinheiro é inimigo declarado da virtude, mal poderia Gregorio de Mattos adquiri-lo, defendendo o justo, e aconselhando o verdadeiro, arrebatado maiormente pelo furor das Musas, cuja condição totalmente se encontra com os labyrinthos de Bardo e Bartolo. Conta-se que muitas vezes aconteceu entrarem-lhe as partes com dinheiro consideravel, e os amigos com assumptos menos dignos, e que elle despresava aquellas, por attender a estes, passando lastimosas necessidades.

Era a esposa um pouco impaciente, talvez pelo pouco pão que via em casa, e tal pelo distrahimento de seu marido, cujas desenvolturas claro se patenteam d’estas obras: como veremos pelas rubricas de cada uma, posto que nem a todas se deva dar inteiro credito; e enfadada de uma e outra desesperação sahiu de casa, e entrou pela de seu tio, que depois de a reprehender asperamente, veiu rogar ao poeta com razões de amigo que a fosse buscar, ou consentisse ao menos que elle lh’a trouxesse: e foi-lhe respondido que de nenhum modo admittiria sua mulher em casa sem vir atada em cordas por um capitão do matto, como escrava fugitiva. Assim se fez pelo mais decoroso modo, e elle a recebeu, paga a tomadia do regimento; protestando chamar Gonçalos áquelles filhos que nascessem de tal matrimonio; porque a sua casa se pudesse dizer de Gonçalo, com mulher tão resoluta.

Acossado da pobreza, e sem esperança alguma de remedio em uma terra, onde sómente o tem para triumphar da fortuna quem por estradas de iniquidade caminha, se entregou o poeta a todo o furor da sua Musa, ferindo a uma e outra parte como raio com edificios altos a materia mais debilitada. E não achando a resistencia, que talvez desesperado pretendia (negação fatal em tempos bellicosos), elegeu peregrinar pelas casas dos amigos, e sahiu ao reconcavo povoado de pessoas generosas pela multidão florentissima de engenhos d’assucar, preciosa droga, que perdendo com o valor a estimação, levou comsigo a dos Magnates Brazilienses.

Por este Paraiso de deleites estragava a cithara de Apollo suas harmoniosas consonancias com assumptos menos dignos de tão relevante estrondo. Lascivas mulatas e torpes negras se ufanizaram dos tropos e figuras de tão delicada poesia. Mas que muito, si quando naufraga o baixel quaesquer barbaros galeam a mais preciosa mercadoria! Não quero persuadir que a desesperação lhe occasionou desenvolturas; mas direi que do genio, que já tinha, tirou a mascara para manuzear obscenas e petulantes obras em tanta quantidade, que das que tenho em meu poder tão indignas do prélo, como merecedoras da melhor estimação, se póde constituir um grande volume.

Mas a prodiga diffusão de mal applicados conceituosos dispendios nascia das enchentes prodigiosas d’aquella Musa, que sem esperança de que seus descuidos correriam na futura estimação, barateava versos á conjuncção dos acasos, facilitando linguagem ao genio dos sujeitos. Da mesma sorte que o celebrado pintor Raphael de Urbino, que disfarçado em sua criminosa peregrinação pintava aos oleiros louça, e taboletas de mezão aos estalajadeiros, sem prevenir que em sua posteridade seriam resgatados por alto preço aquelles borrões milagrosos da sua malograda idéa.

Assistia-lhe nestas desenvolturas com outros do mesmo genero aquelle celebrado trovador de chistes, a quem uma titular lisonja proporcionou Thalia por ama sêcca, que se prezava muito de ministrar-lhe assumptos, apezar dos melhores amigos, que d’estas companhias lhe prognosticavam sempre a fatal ruina.

Governava então d. João de Alencastre, secreto estimador das valentias d’esta Musa, que a toda a diligencia lhe enthesourava as obras desparcidas, fazendo-as copiar por elegantes lettras; quando de uma náu de guerra desembarcou o filho de certa personagem da côrte com animo vingativo contra o poeta, por dizer-se que havia satyrisado toda a honra de seu pae: e bem que disfarçava sua maligna intenção, toda a intenção maligna percebeu d. João dos mesmos disfarces d’ella. Era este cavalheiro generosamente compadecido, e excogitando meios de livrar uma vida em que a natureza depositára tão singulares prendas, achou traças de segurar-lhe o perigo nos fingimentos de rigoroso justiceiro.

Ordenou aos officiaes de milicia que saindo fóra da cidade a toda a cautela lhe trouxessem preso o dr. Gregorio de Mattos. Mas não pôde effeituar a diligencia, porque suspeitoso d’ella o vigario da Madre de Deus, Manuel Rodrigues, homem virtuoso que o hospedava, soube consumir naquella ilha as mesmas presumpções de ser achado. Mas o governador impaciente com ésta tyranna piedade, que lhe frustrava os meios da sua piedosa tyrannia, communicou a intenção ao secretario d’Estado Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, pessoa de bom entendimento, e como tal estimador do poeta, e accordaram que o mesmo secretario fingisse que o chamava para dar-lhe importantes avisos, que não poderiam ser menos de pessoaes; e com carta de sua lettra se enviou portador interessado nas melhoras do perseguido.

Conhecida a lettra pelo dr. Gregorio de Mattos, e confiado na muita honra de Gonçalo Ravasco, promptamente veiu a fallar-lhe no logar determinado, que era a casa de Antonio de Moura Rolim, tambem amigo, para que se veja que quando os amigos grandes se junctam empenhados a favorecer um desditado poeta, será para o prenderem e desterrarem por modo de fineza. Sempre tenho que d’estas tres amizades, a primeira arrastou com sagacidade as duas por temer em seu govêrno os atrevidos córtes d’esta penna.