Pois tocais de Orpheu a lyra,

E a pluma tendes de Apollo.

Com estas prendas fazia apreço particular de uma viola, que por suas curiosas mãos fizera de cabaço, frequentado divertimento de seus trabalhos, e nunca sem ella foi visto nas funcções a que seus amigos o convidavam, recreando-se muito com a brandura suave de suas vozes. Por esta viola, que havia deixado na Madre de Deus, fazia extremos taes, receiando que sem ella o embarcassem, que o vigario Manuel Rodrigues, a quem feriam na alma suas desgraças, promptamente lh’a mandou com um liberal donativo para as cordas d’ella.

D. João, chegada a hora de embarcar, o mandou vir á sua presença, e tractando-o com humanidade de principe lhe pediu que evitasse as occasiões de sua perdição ultima; porque era lastima que uma pessoa, a quem o céu enriquecêra de talento para melhor fama, comprasse o seu discredito com o discredito irremediavel de tantos. Decorosamente o fez embarcar, não se olvidando de recommenda-lo ao governador de Angola Pedro Jacques de Magalhães, a quem com a causa d’aquelle degredo insinuava os perigos que em qualquer parte corria sua pessoa.

Chovendo maldições e praguejando satyras peregrinou os mares aquelle que por instantes naufragava nas tempestades da terra. Dizia elle que com razão sobrada podia articular o non possidebis ossa mea de Scipião; e fallou com rigoroso acêrto: porque se houveram patrias no mundo que desterraram seus benemeritos filhos, não consistiu talvez essa desgraça tanto na malicia d’ellas, como no destino d’estes. Porém a Bahia dos muitos habitos de desprezar seus naturaes fez natureza para aborrece-los e persegui-los. A melhor pintura d’esta verdade se póde ver nas vozes que sôbre ella declama o mesmo poeta, onde sem hyperbole de Musas resplandece a propriedade tal, que eu com ser extrangeiro acreditava a poesia com o juramento dos Sanctos Evangelhos.

As personagens de quem o poeta justamente se queixa em suas satyras são comparadas a uma herva natural de Guiné, chamada aquelle terreno Nhesiquè, e transplantada neste com o nome de Melão de S. Caetano, por virem as primeiras a um sitio d’este nome; a qual de sorte se apoderou do Brazil em toda parte, que não ha logar sem ella, nem planta que prevaleça com sua inutil visinhança. As casas de religião enriquecidas e illustradas pelos curiosos e liberaes mazombos, e sempre nellas laborando petulantes opposições a parcialidade dos Reinóes admittidos alli por com miseração. Ingratos hospedes! Mas si algum tivesse desejos de padecer martyrio, fallar nesta materia queixoso causaria ao menos um degredo similhante ao do doutor Gregorio de Mattos.

Não poderá negar-me a razão, que choro, quem sabe que no anno de 1740 mandou o provincial de S. Francisco conduzir do Porto uma chusma de pobretões, em desprezo dos pacientissimos naturaes da terra, para adorno da sua religião, e nunca o demonio acertou com esta destreza para combater o animo de Job. Chegam finalmente a aborrecer os mesmos filhos sem maior causa que haverem nascido no Brazil, onde receberam cabedal, e inundando por toda a parte em que os brazileiros os honram e estimam, em nenhuma d’ellas querem soffrer que haja honra nem estimação nos brazileiros.

Fazendo porém verdadeira distincção nos nossos naturaes que são comprehendidos nesta miseria, culparei sómente os das fecundissimas provincias da Beira e Minho (salvando os nobres), e é de reparar que sendo estes os que com maior necessidade se lançam a buscar dinheiro, são estes mesmos aquelles cuja suberba é tão formidavel a quem os remedeia. Vejamos ésta queixa allegorisada pela nossa aguia sôbre o gato de um meirinho:

Não posso comer ratinhos,

Porque cuido, e não me engano,