Que de meu amo são todos
Ou parentes, ou paisanos:
Porque os ratinhos do Douro
São grandissimos velhacos;
Em Portugal são ratinhos,
E cá no Brazil são gatos.
Mas deixando esta materia por irremediavel, e não por temer as unhas d’estes gatos, irei seguindo o meu infeliz poeta em sua fatal navegação.
Chegado ao reino de Angola, miseravel paradeiro de infelizes, a quem com a propriedade costumada chamou armazem de pena e dor, e exercendo na cidade de Loanda o officio de advogado, aconteceu que amotinada a infantaria da guarnição d’aquella praça, e posta em armas fóra da cidade, entrou uma chusma de soldados pela casa de Gregorio de Mattos, forçando-o a que os fosse aconselhar sôbre as capitulações que tinham com o governador seu general; e posto com effeito entre os amotinados no campo, clamou que o levassem á casa para trazer certa cousa que lhe esquecêra, sem a qual não podia obrar á medida de suas satisfações. Entenderam os soldados que seria livro de direito, e não duvidaram de romper segunda vez o perigo de entrar na praça; mas aquelle que imaginavam instrumento de solido conselho, outra cousa não era mais que a sonora cabaça do poeta; do que se infere o como chasqueou este Democrito das alterações da fortuna.
Muito pago ficou o governador d’esta galantaria geralmente celebrada. Serviu-se d’elle para adjuncto na condemnação dos cabeças d’aquelle motim, que foram arcabuzados pelos ouvidos; e desempenhando a recommendação de d. João de Alencastre deu-lhe liberdade para embarcar-se a Pernambuco. Posto naquella capitania, governada então por Caetano de Mello de Castro, com o semblante perturbado pela indecencia do habito demandou a presença d’este fidalgo, que lastimando de ver o miseravel estado a que chegára um homem tão mimoso da natureza, lhe fez donativo de uma bolsa bem provida, e com palavras um pouco severas lhe mandou que naquella capitania cuidasse muito em cortar os bicos á penna, si o quizesse ter por amigo. Não sei si era zelo publico, si particular temor. Gregorio de Mattos o prometteu fazer assim, e em algumas occasiões mostrou quão violentado estava com aquelle preceito: seja uma d’ellas o caso que refiro.
Picadas de ciumes se encontraram duas mulatas meretrizes juncto á porta do poeta, e renovando suas paixões de uma e outra parte se descompunham em vozes petulantes. Passaram de lingua a braços, e atracadas tenazmente cahiram por terra em ridicula visão, a tempo que avisado da grita sahiu a vê-las o poeta, e dando naquelle espectaculo deshonesto começou a gritar: ai que de El-Rei contra o senhor Caetano de Mello! Perguntaram-lhe os circumstantes que queixa tinha do governador: «Que maior queixa (respondeu) que a de prohibir-me fazer versos quando se me offerecem similhantes assumptos?» Notavel argumento do respeito d’este fidalgo, si Gregorio de Mattos não tomára depois algumas licenças de satyrisar.