Eis, succintamente, as causaes do magistral opusculo. Eis porque, n'esta hora triste, de nova reacção jesuitica, o seu actual editor, sobre se fazer benemerito das nossas boas lettras, se torna ainda meritente da respeitosa sympathia dos verdadeiros amigos da liberdade de consciencia.
BRUNO.{XXVII}
O BISPO
{XXVIII}
{XXIX}
I
Na cathedral.—Revelações d'um satyro
No claro azul d'um frio céu d'inverno,
Sobre a collina onde a cidade dorme,
Destaca, ao longe, o escuro vulto enorme
D'antiga cathedral;
Fica-lhe ao lado a succursal do inferno,
—Velho epigramma ao lugubre edificio,
—Largo covil doirado, aberto ao vicio,—
O paço episcopal...{XXX}Bate o luar nos porticos escuros,
Abrigo á noite de sinistras aves;
Lá dentro, as altas, magestosas naves
Envolve a solidão.
Sobem, crescem mil sombras pelos muros,
D'um bronzeo lampadario á luz distante,
Sob as curvas da abobada ondulante
Que estampa os arcos no marmoreo chão.O côro é largo e bello. Ali se abriga,
D'um capitel nos rendilhados folhos,
Um satyro, que ri, piscando os olhos,
Lascivo como Pan.
Dizer parece á cathedral antiga:
«Porque me tens aqui, mostras-te ufana?
Pobre igreja catholica-romana!
Pobre igreja christã!»Diz com orgulho, gracejando, ao Christo:
«Eu fico, a meu pezar, n'angustia absorto,
Ao vêr-te assim crucificado e morto,
Ó déspota dos meus!{XXXI}
Não desejo ser Deus... se Deus é isto:
—Um cadaver perpetuo exposto ao frio—
E, velho fauno desdentado, eu rio,
Eu rio-me de ti!—de ti, que és Deus!Vês alem, por detraz do lampadario,
Um satanaz assoberbando um globo?
Deitado aos pés de Deus, parece um bobo
Deitado aos pés d'um rei.
Ao vê-lo assim, tristonho e solitario,
Tive dó d'aquell'alma taciturna,
E, na mudez da escuridão nocturna,
Com elle me liguei.Vago rumor de vozes mal distinctas
Nos guiou para os porticos do paço:
Eu, sabendo que o bispo era um devasso,
Previa a bacchanal...
Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas
Chammejante de pejo o rosto frio,
Tudo o que eu vi no lupanar sombrio,
No infame lupanar sacerdotal:{XXXII}
II
A humildade do bispo
Era um bello aposento,
Que Faublas prezaria sem desdouro...
—Ninho d'abutres, perfumado e fôfo,
A que dava um revérbero sangrento,
Á froixa luz d'um candelabro d'ouro,
A adamascada purpura do estôfo.—Molles coxins, em largas ottomanas,
Convidavam a languidas posturas
As Aspasias catholicas-romanas,
As lúbricas sultanas
D'aquelle harem christão, meio ás escuras!Mil fragrancias subtis no morno ambiente;
Ao centro a meza,—o impuro altar da orgia;—
Sobre a meza a baixella resplendente...
A baixella roubada á sacristia:{XXXIII}
Crystaes por toda a parte, e, nos espelhos,
Todo esse lustre a espaços reflectido,
Da luz da orgia á froixa claridade...Satanaz debruçou-se ao meu ouvido
Para dizer-me, a rir-se: «Os Evangelhos
Aconselham ao bispo esta humildade!»
III
Dolores
Sentado á meza, o principe da Igreja
Inclina a calva fronte aos seios tumidos
D'uma hespanhola, cujo olhar flammeja,
E em cujos labios humidos,
Rindo, o prazer de beijos s'enebria!Ao vêr-te assim, myrrada
Pelos impuros halitos da orgia;{XXXIV}
Ao vêr-te assim, na sombra, arremessada
Dos canteiros nataes a impura alcôva,
Quem ha que se commova,
Pobre flôr dos jardins da Andaluzia?Tem por nome Dolores...
Por officio, vender a quem lh'os paga,
Como não tem amor, os seus amores.É soberba e formosa!
Brilhante e seductora!—imagem vaga
D'Eva... já criminosa,
Escondendo a nudez por entre as flores!Mixto de sombra e luz, de lava e gêlo,
D'éden occulto e precipicio aberto,
Prende, fascina, attrahe, céga, arrebata!
Para quem dorme, em extasis, coberto
Pelas ondas gentis do seu cabello,
É como no deserto
A mancenilha, que adormenta e mata!{XXXV}Os braços nus da joven messallina
Cingem o padre, que, sorrindo, oscúla
A carne branca, avelludada e fina,
Que lhe é dado gosar... mesmo sem bula.Collam-se, em longo beijo,
As duas bocas ávidas, famintas...Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas
O rosto frio a chammejar de pejo!
IV
Supplicas e promessas.—Caracter
evangelico do bispoDOLORES
Prende-me ás tranças formosas,
Se tu és o meu amante,
As joias mais preciosas
Da tua mitra brilhante!{XXXVI}Fulgirão co'as pedras tuas,
Cheias de raios inquietos,
Meus soltos cabellos pretos
Nas alvas espaduas nuas!Haja depois quem se affoite
A julgar outras mais bellas...
São tranças da côr da noite,
Precisam d'essas estrellas!O BISPO
Rainha das feiticeiras!
Venus, que sahes d'este mar!
Pede tudo o que tu queiras,
Tudo o que eu te possa dar.Louca, aos meus beijos entrega
Teus hombros, teus seios nus!...
Dou-te a igreja, o paço, a adega,
O báculo, o annel, a cruz;{XXXVII}As altas seges vermelhas
Que tem cem annos, ou mais,
E as gordas, rijas parelhas
Das mulas episcopaes...Toda a riqueza que brilha
No pomposo altar de Deus,
E um dos meus cónegos, filha,
Por cada beijo dos teus!...DOLORES
Eu gosto de sentir nos braços froixos
O enorme pezo do teu corpo exangue,
Mas, se te collo a boca aos labios roixos
Acho em teus labios um sabor a sangue!...Amas o sangue?
O BISPO
Adoraria a gloria
De ter sentido, eu só, n'esta existencia,
Todo o sangue dos martyres da historia
Cair-me, gota a gota, na consciencia!{XXXVIII}Quizera ter colhido o goso ardente
De vêr no circo, em Roma, as feras brutas;
Nero a rir-se feroz, ébrio e contente,
Nos braços nús das ébrias prostitutas!Os pallidos christãos,—torpes escravos,—
Expirando entre as garras das pantheras,
E a turba inquieta prerompendo em bravos...
Em bravos ao tyranno, a Roma, ás feras!Quizera, quando as sombras da heresia,
Sobre um povo servil, grosseiro e baixo,
Rasgava, escurecendo a luz do dia,
Do Santo Officio o pavoroso facho.Quizera dar a humanidade inteira
Á nossa chamma augusta, aos pôtros nossos,
E, dos pôtros no horror, e na fogueira,
Crestar-lhe as carnes, triturar-lhe os ossos!{XXXIX}Mil peçonhentas viboras no seio
A infame contra nós, sem medo, abriga.
Mal sabes tu, mulher, quanto eu a odeio,
A humanidade, a nossa escrava antiga!Podesse eu ter, ó pallida Dolores,
Do sangue d'ella trasbordando o calix!...
Era um rebanho vil; nós, os pastores,
E a Realeza era o canis pastoralis...Tornou-se livre e audaz; mitras, diademas,
Báculos, sceptros, esmagou n'um'hora!
Quebrou, raivando, as solidas algemas,
E a fronte, ergueu, sem medo, á luz da aurora!Mas que aurora, mulher! que vasto incendio
Nos sombrios dominios do passado!
Que opprobrio para nós! que vilipendio!
Que roubo infame ao senhorio herdado!{XL}E assim ficamos nós, sem que lavasse
De sangue um rio a nodoa!...—escura ideia!
E assim trazêmos na orgulhosa face
Perpetua a marca vil da mão plebeia!»
V
Movimentos de fera.—Risos longinquosErgueu-se, febril, d'um salto,
Como um tigre nos juncaes;
Seus olhos chispavam lume
Como os dos lobos cervaes;
Crispava as mãos como garras;
Tinha rugidos na voz!
—Satanaz tremia, ao vêr-lhe
O rude aspecto feroz.Correu á larga janella
E, abrindo-a de par em par,
D'um anáthema ruidoso{XLI}
Fez os espaços vibrar...
—Ouvia-se, ao longe, ao longe,
O rir convulso do mar.
VI
O anáthema, fragmento do «Syllabus».—
Angustias d'uma alma piedosa«Malditos sejaes vós, Progresso e Liberdade!
Gémeos filhos do Mal, irmão e irmã do Crime;
Tu, que és um sacrilégio, abôrto da impiedade;
Tu, que dás força á plebe e esmagas quem a opprime!Vêde: por toda a parte as hydras do peccado
Erguem altivo o collo, iradas contra nós,
E o nosso bom cutello esconde-se embotado
Na cova onde repousa o nosso extincto algoz!{XLVII}Por vós andam na sombra, errantes, perseguidos
Como as feras no matto, os reis d'origem pura;
Aos ministros de Deus preferem-se os bandidos...
E assim chamaes aurora á noite escura... escura!Comvosco, onde assomaes, a tempestade assoma;
Rebrame o vendaval no espaço onde rugis,
—Negro sopro, que apaga as lampadas de Roma,
E aviva ao mesmo tempo os fachos de Paris!Erguendo para os céus a pavorosa fronte
O anjo da Assolação atraz de vós caminha;
Quando o incendio alumia a extrema do horisonte
Sois vós que perpassaes n'essa abrazada linha!E para que desmaie o fogo da heresia,
O fogo a que se aquenta a sordida relé,
Debalde sopra o clero á cinza inutil, fria,
Aos ultimos carvões do extremo auto-da-fé!{XLIII}Ó pavidos heroes da lugubre tragedia
Que a historia do passado aos seculos ensina!
Ó despotas feudaes da torva idade-media!
Ó soffregos irmãos das aves de rapina!Padres, em cuja mão fulgia a núa espada
Co'as mil scintillações d'um raio abrazador,
E em cujo ferreo peito a veste consagrada
Tinha nodoas de sangue a macular-lhe o alvor!Monges de frio aspecto e d'animo impassivel
Que, a bem do novo Deus, f'rieis os crentes novos;
Ó dérviches de Roma, a cuja voz terrivel,
Como á voz de Jehovah, tremiam reis e povos!Que é de vós? onde estaes? Que braço vos subjuga,
Que, nem como um phantasma, a triste sombra ergueis,
Ao vêr passar assim, na vergonhosa fuga,
O clero envilecido, os infamados reis?{XLIV}No carro do Progresso ostenta-se a gentalha,
—A luctadora vil, que um louco orgulho inflamma,
E, ao cruzar triumphante a arena da batalha,
Faz que lhe sejam solio os estendaes da lama.Da Liberdade aos pés rola, vilipendiada,
Como um idolo torpe, a imagem de Jesus,
E do eterno Voltaire a eterna gargalhada
Persegue a Virgem-Mãe que chora aos pés da cruz!Fervem inda no espaço os odios implacaveis
De que innundára a terra uma sinistra ideia,
—A ideia que do lodo exalta os miseraveis
E inspira «Oitenta e nove»,—a tragica epopeia!Para que espante os céus, para que o mundo aterre,
Quantos éccos talvez de novo accordará,
Fria como uma espada, a voz de Robespierre,
Ardente como um raio, o grito de Marat?!{XLV}Esse tempo em que a plebe, os rôtos, os descalços,
A ignobil multidão, potente em seu reinado,
Tumultúa, a rugir, d'emtorno aos cadafalsos,
Onde expia a Realeza as glorias do passado;Esse tempo sinistro ha de voltar, e em breve!
Cedo as vagas fataes d'immensa revol'ção,
Como as ondas do Éri', massa d'espuma e neve,
Passando sobre a terra, a terra assolarão!Debalde o Vaticano affasta a sombra estranha
Que peza sobre nós, de tanto horror transidos;
Debalde irrompe a luz dos flancos da montanha
Que é fulgido Sinái aos crentes perseguidos!Fluctuam já sobre elle a tempestade e a morte:
Véla-o, como um sudario, a nevoa sepulchral,
E Roma julga ouvir, nos vendavaes do Norte,
Das barbaras legiões a marcha triumphal!{XLVI}Emquanto a voz d'um velho, em lagrymas banhada,
Clama contra a revolta, obscura, su'terranea,
Sem pejo se arremessa a Italia deshonrada
Nos braços varonis dos povos da Germania...Em vão, ó sacro asylo, em vão inda retumbas
Co'a sussurrante voz das santas orações:
Os servos do Senhor descem ás catacumbas;
Acolhem-se do nada ás frias solidões!Mas que m'importa a mim que o resto se acobarde,
Se eu não cedo ao martyrio os fóros da opulencia?
«É tarde!» disse alguem.—Não! inda não é tarde!
Seja a lucta sem dó, sem tregoas, sem clemencia!Os que são contra nós inspiram medo e asco,
—Venenosos reptis á flôr d'um lodaçal...
Ah! podesse eu punir,—punir, como o carrasco!
Ah! podesse eu vencer,—vencer, como o chacal!{XLVII}Podesses tu, risonha, eu placido e sereno,
Approveitando o amor, o lubrico pretexto,
Encher pelos festins as taças de veneno!
Ah! fosses tu Vannoza... eu, Alexandre Sexto!»
VII
Remeniscencias da canção dum proscripto
Disse, e a bella hespanhola, anciando de surpreza,
Ia a lançar-lhe ao hombro as encruzadas mãos,
Quando julgou ouvir, d'emtorno á lauta meza,
Vibrarem mil clarins ao som da Marselheza,
E erguer-se um grito ardente: «Ás armas, cidadãos!»Loucuras da hespanhola,
Que uma vez, n'um café da Andaluzia,
Tinha ouvido soltar-se aquelle grito
Dos labios d'um francez, moço e proscripto,
Que depois de cantar pedia esmola...{XLVIII}
VIII
Orgia.—Amor e vinho.—
Ainda o caracter evangelico do bispo.—
Mane, Thezel, Phares!Eil-os de novo no calor da orgia:
O BISPO
O symbolo da Fé,
O largo calix d'oiro
Do velho altar da Sé,
Enche-o de vinho transparente e loiro!Bebamos! Quem bebe acalma
Todas as máguas que tem.
Cá dentro, ás vezes, noss'alma
Parece beber tambem.Não sabes como eu abranjo
Os mundos que tu não vês?
Colla aos teus hombros d'archanjo
As azas da Embriaguez!{XLIX}Ai! verás como te elevas
Nos sonhos que ella produz...
Passarás da luz ás trevas!
Irás das trevas á luz!Ha de abrazar-te em desejos
Que ella mesma apagará;
Has de sentir muitos beijos
Sem nunca vêr quem t'os dá!Ora, a nudez, que enthusiasma,
Pelo abysmo encobrirás,
Fugindo como um phantasma
Aos braços de Satanaz;Ora, ante os olhos do Eterno,
Rolarás sem um só véu,
Tentando, em nome do inferno,
A castidade do céu!{L}Ai! bebe, flôr do serralho,
Como a rosa, a tua irmã,
Bebe as perolas do orvalho
De que se enfeita a manhã!Molha os labios á vontade
No santo vinho hespanhol:
As gôtas d'essa humidade
Hei de eu seccar, como o sol!Quanto prazer se resume
Nem tu calculas, talvez,
No suavissimo perfume
Do Madeira e do Gerez!É justo que me acompanhe
Tua alegria sem par:
Venha o Champanhe! o Champanhe!
Saltem as rolhas ao ar!{LI}Canta, ó deusa, que me abraças
Cheia d'indomito ardor!
D'entre o tinido das taças
Solte-se um canto d'amor!Qu'importa o grito da plebe
Que a miseria escravisou?
Eu folgo; tu canta e bebe!
És quem és: eu sou quem sou!Dizem que por essas ruas
Andam vagando, ao desdem,
Descalças e quasi nuas,
Umas crianças sem mãe;Que, onde a miseria rebrame
Contra a nossa ostentação,
Avulta uma cousa infame
Chamada prostituição;{LII}Que a sombra é vasta e profunda
Nos desherdados casaes,
Que a espaços a chuva innunda
E abalam os temporaes;Que, entre a noite escura e triste,
Por terem fome, uns atheus
Perguntam se Deus existe,
E, se existe, onde está Deus?;Que uns velhos, a quem se deve
Profiqua gloria sem fim,
Dormem, cobertos de neve,
Ás portas do meu jardim;Que, sem tecto onde se acoite,
Um bando de paes e mães
Inveja, durante a noite,
A casota dos meus cães;{LIII}Que a Justiça, em vis calvarios
Onde é vergonha morrer,
Crucifica os operarios
Que já não tem que fazer!Será, póde ser verdade...
Mas, tão distante do céu,
O archanjo da caridade
Decerto que não sou eu!Canta! Bebamos! Scintille
Noss'alma d'amor jovial!
Haja um quarto do Mabile
No palacio episcopal!Quando, nas lagens marmóreas
D'igrejas, ditas christãs,
Já se exaltaram as glorias
E o nome das certezas,[(1)]{LIV}Qu'importa que n'estes paços,
Longe do olhar de Jesus,
Morra, na cruz de teus braços,
Um sacerdote da Cruz?Canta, como as filomelas!
Canta, como os roixinoes,
Á flôr, ao lago, ás estrellas
Dos teus jardins hespanhoes!Mas não cedes ao meu rôgo?
Filha, em que estás a scismar?DOLORES
Scismo nas letras de fogo
Dos muros de Balthazar...{LV}
IX
Pejo do satyro.—Satanaz e Deus.—
A immobilidade de Jesus.Não posso dizer mais... não sei... não quero!
Satanaz, a tremer, tomou-me o braço,
E ambos, deixando o tenebroso paço,
Voltamos para aqui:Rudes convivas dos festins de Nero!
Sardanapálo! ó torvos seids d'Asia!
Borgias! Tiberio! Messalina! Aspasia!
Vós sabeis o que eu vi!Ó Christo! Aos pés de Deus lá dorme o vulto
Do eterno tentador... N'aquella orgia,
Se lá coubesse Deus, Deus rolaria
Aos pés de Satanaz!...»{LVI}Calou-se de repente e, meio occulto
Do capitel nos rendilhados folhos,
Ria cada vez mais, piscando os olhos,
O fauno,—o hereje audaz.Jesus, no entanto, immovel, silencioso,
A fronte morta para o chão pendia,
Na terrivel postura da agonia
A que o forçára a cruz...E ha quem espere um grito doloroso
D'aquell'alma sublime? Ha quem espere
Vêr passar o sorriso de Voltaire
Nos labios de Jesus!
X
Na immensidade
Longe, ao longe, na abobada do espaço
Calma, impassivel, luminosa e fria,
Pairava ancioso, vigiando o paço,
Das orgias o archanjo,—a Apoplexia...{LVII}
AO POVO INGENUO
Bem cedo, ó triste povo, ó pobre gente!
Bem cedo eu te hei de vêr, em magua absorto,
Ir, de joelhos, á capella ardente
Beijar os santos pés ao bispo morto...No pó, na cinza, ó povo, a fronte roja,
Ao vêr no esquife o Patriarcha austero...
Tu, que poisas na mão que te despoja
Mil ósculos d'amor crente e sincero!{LVIII}Se elle houvesse o «direito do mais forte»
Arrastarias vergonhosa algema;
Vivo, odiou-te: adóral-o na morte!
Derradeira abjecção! baixesa extrema!Quando has de tu deixar as vis doutrinas,
As vis superstições dos tempos velhos,
E fazer cathedraes das officinas,
E procurar na Sciencia os Evangelhos?Quando has de tu surgir calcando arminhos,
Nos salões onde, altivos do seu nada,
Ri a mitra da c'roa dos espinhos,
E o sceptro inutil da prestante enxada?Quando has de tu entrar na grande liça,
E, saccudindo o teu grilhão desfeito,
Dizer ao Padre: «Eu chamo-me a Justiça!»
Dizer ao Rei: «Eu chamo-me o Direito!»?{LIX}Succeda á farda a blusa; o ganho á esmola;
As armas do trabalho á carabina!
Onde estava a prisão surja uma eschola,
E um theatro onde estava a guilhotina!Da liberdade atalayando o asylo,
Sê magestoso e bom, sê grande e puro;
Toma, nas rijas mãos, bravo e tranquillo,
A sagrada bandeira do futuro!É já longo o caminho do Calvario
Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!...
Desfaz, quebra, estilhaça o teu rosario!
Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos!Porto, 12 de novembro de 1873.
NOTA
[(1)] Quando nas lagens marmoreas
D'igrejas, ditas christãs,
Já se exaltaram as glorias
E o nome das cortezãs...«... Foi visto por muito tempo, na igreja de Santa Barbara (Roma), o tumulo da afamada cortezã Imperia, tão celebre no tempo de Leão X. Haviam-lhe gravado no marmore a seguinte inscripção, exaltadora da formosura d'aquella mulher:
«Imperia cortisana romana, quæ digna tanto nomine raræ inter homines formæ specimen dedit, vixit annos XXVI, diis XII, obiit 1511, die 15 Augusti.»
A ninguem causava espanto vêr este preito de admiração tributado á memoria d'uma mulher que viveu na devassidão e na crápula!
EUGÈNE BRIFFAULT—Le secret de Rome au XIX.me siècle.
EXEMPLAR DE BRINDE DO AUCTOR A SUA ESPOSA
Á doce e affavel companheira dos meus actuaes dias de soffrimento,
á companheira affectuosa de oito annos, até 19 do corrente, e dos muitos outros que decorrerão mais felizes, numa modestissima existencia--se o Destino quizer--
Offerece
para guardar como segredo
GUILHERME.Sabes que o meu amôr é teu por toda a vida,
E inda não tens um Bispo? Ha mezes!... que preguiça!
São cousas da cabeça, um tanto distrahida,
Pois quanto ao coração fazes-lhe tu justiça!23—maio, de 1874.