A influencia sentimental do bondoso caracter do imperante havia ido, porém, tão longe que nem os alarmes que sobre os progressos do ultramontanismo procurou, n'um collectivo manifesto eloquente, communicar ao paiz Alexandre Herculano, nem a rude, a furiosa campanha de José Estevão, que, leão dormente, um instante restituiu ao parlamento essa interessada vehemencia que tanto surprehendera o principe de Lichnowsky, conseguiram abrir os olhos da ignara multidão. Tão certo é o erro dos que não querem reconhecer que a monarchia é o producto, directo e quasi infallivel, da espontaneidade popular. Educadora das massas, degeneram estas logo em suas escravas.

Assim, melancholicamente, as gentes se retiraram, recolhidas, a prantear o seu rei. Os homens sinistros, que queriam governar em seu lugar, como elle se não conformasse a acompanhal-os nos seus crueis desatinos, haviam-o envenenado, ao misero!{XXIV}

O novo reinado começou, pois, desconsoladamente; a lembrança do bem-amado estava proxima, tarjada de negro, regada da ineffavel agua dos olhos humanos. O principe successor feria pelos modos bruscos de homem do mar, repentinamente avocado a um meio que, por completo, desconhecia. Se, em sua estupidez, as calumniosas suspeitas logo se desfaziam a um ultimo sopro de recto bom-senso, envergonhado da infame torpeza, o certo é que as tristes apprehensões ficavam, escorias no fundo do cadinho. O que seria? O que viria?

E o certo era que as maneiras altivas do dynasta, tão em contraste com a docerosa cortezia que se esvahira, chocavam, arrefeciam os fremitos, como n'essa primeira, gelada recepção da segunda cidade do paiz. Os politicos temiam pelo futuro; os cortezãos debalde explicavam a conducta de seu amo; e os poetas, inconscientes interpretes do sentimento popular, atravez os subservientes protestos hypocritas d'uma burguezia respeitadora das conveniencias, ousavam, como o snr. Diogo Souto, debruçar-se da beira dourada dos camarotes dos theatros, a apontar ao principe, pallido da audacia, o espectro arsenicado de seu irmão, gritando-lhe n'um terror:

Imita-o, imita-o bem!

Mumificada no spasmo mystico, a consciencia publica, catalepticamente colleando, seguiu de rastos,{XXV} ao cantochão ultramontano, até á beira do campo-santo jesuitico. Insistentes na sua obra lutulenta, os homens de Roma apoderaram-se da eschola, e uma funeraria ironia tomou para zona da sua revista de forças, para terreno das insolentes paradas o mesmo palacio de civilisação que, na frontaria, humanamente orgulhosa, do espirito que o fundou diz: Progredior, eu avanço.

Então, sacudindo a sua merovingia cabelleira romantica, um bello adolescente, Guilherme Braga, um bohemio, um doido, como lhe chamava a mercearia contemporanea, ergueu, elle só, um formidavel grito, de dôr, de colera, de protesto: Os falsos apostolos, por nôme.

A reacção alarmou-se; o impio foi excommungado, em sua mocidade, intrepida como a d'aquell'outro ephebo sublime de quem é a unica apotheose um derradeiro, simples, musical, maravilhoso verso do velho Hugo:

La gloire au front te baise, oh toi si jeune encore!

Na sua faina concordante, o bispo do Pará (contra cuja obra nefasta começava a reagir victoriosamente a eloquencia do advogado Saldanha Marinho, recem-fallecido) não conheceu medidas. Propoz-se o enxovalho publico do joven poeta, que lhe replicou com o incendiado pamphleto que vé agora as honras, tardias, da reimpressão.{XXVI}