Então, recordei-me do que escreveu um sabio.—«O mar tem maiores riquezas do que a terra».

O fundo do Oceano dividia-se em grandes malhas:—uma de arvoredo, outra de erva ursina{47} compacta, campos d'esponjas finissimas sobre as quaes se estendiam, como em fofa cama, animaes marinhos de differentes especies ruminando, como manadas de gado bovino, as colheitas feitas em pastagens proprias ao seu sustento.

Alguns d'estes animaes eram pachydermes de gigantescas proporções: olhavam-nos perfeitamente indifferentes, o que não pouco me tranquilisou, porque contra uma colligação e attaque em massa, era impotente a electricidade.

Outras malhas eram de campos d'algas de extraordinaria altura.

As suas palmas eram grandes bolhas d'ar que conservavam as hastes perfeitamente verticaes, e algumas que se desprendiam da planta mãe pareciam fléchas despedidas do arco em direcção á superficie.

Outras malhas eram d'um lyrio lindissimo, produzindo um effeito extraordinariamente bello.

Uma planta era muito curiosa: dava flores que eram procuradas por um pequeno peixe para lhe sugar, provavelmente, um mel, ou substancia qualquer, á imitação da abelha.

Estas flôres, porém, com o contacto, envolviam o peixinho nas dobras do seu calice, ficando prisioneiro.

É n'este momento que um outro peixe de{48} proporções maiores e de marcha indolente que estivera de espreita, engulia a flôr e a sua victima, e d'este modo, sem conflicto, e sem trabalho, provia ao seu sustento.

Nunca poderia imaginar que no fundo do mar existissem parazitas como na superficie do globo, vivendo á dispensa do trabalho d'outros e com todo o cynismo.