A floresta de coraes, sobre a qual pairavamos, parecia um vasto viveiro d'aves, umas abrindo passagem por entre a ramada, outras, e estas eram os peixes voadores, saltando de ramo em ramo.

Aproximando-nos mais, pareceu-me ver ninhos nos ramos e avesinhas abrindo de vez em quando, as azas e o bico como fazem os implumes ao approximar-se a mãe trasendo-lhes de comer.

Não queria acreditar os olhos: apalpei-as: eram effectivamente aves do mar, uns bivalvos que se abriam e fechavam á maneira da borboleta: esta pequena concha, encrustada na ramagem e terminando n'uma das extremidades em bico, illudia perfeitamente.[[2]]

Embrenhamo-nos então na floresta illuminada por uma multidão assombrosa de especies e de côres em constante movimento.

Os coraes eram uma maravilha.

O coral preto, sobre tudo, cujo tronco dois homens não abrangiriam, com a sua folhagem fina e arrendada á imitação de filigrana, era de surprehendente belleza. A seus troncos, altamente{46} polidos, nenhum mollusco podia adherir, o que o tornava distincto de todos os mais.

O coral vermelho de troncos nús e nodosos, e o branco em gigantesco leque com as suas multiplas ramificações alvas de neve, formavam um conjuncto que ultrapassava a explendida vegetação das mattas virgens da America.

Estas duas ultimas qualidades offereciam um aspecto singular, com as suas encrustações de parasitas animaes e vegetaes de variadissimas especies: conchas diversas, esponjas, serpulas, vermes e insectos microscopicos que ahi tinham adherido, construindo suas instancias, consoante a sua natureza.

Pouzamos então sobre um banco de coral animal, essa construcção produzida por myriades de seres microscopicos, e que, no decurso de seculos, chegam á superfície dos mares formando ilhas.

Ostras de grandes dimensões, como jámais foram vistas em maiores alturas, adheriam áquelle chão escarlate em cujas fendas existiam pérolas, das quaes, uma só, faria uma fortuna.