Quasi morto, achei-me á flôr da agua: estava salvo, mas aonde; meu Deus! Em pleno mar!
Então deitei-me de costas sobre as aguas para descançar.
Quanto tempo estive n'esta posição, sustentando-me machinalmente, não sei:—Os raios solares cegavam-me: cerrei os olhos e apoderou-se de mim um lethargo.
Tinha perdido o conhecimento de todo!
Quando voltei a mim, achei-me estendido sobre o convez d'um navio.
De bordo tinham avistado um corpo boiando á tona d'agua e deitando uma lancha ao mar tiraram-me ainda a tempo.{53}
O meu primeiro pensamento foi para ella: tornei a fechar os olhos para não ver os habitantes da terra: a saudade do paraiso que tinha deixado para minha perdição, e a dôr que me enlutava a alma, não me permittiam outro sentimento, outro desejo, senão o da morte.
Levaram-me então para a camara.
Ouvia dizer aos meus salvadores «cahiu, necessariamente, ao mar sem que se tivesse dado por isso a bordo; ou não o poderam salvar por ser talvez de noite.
Resolvi-me approveitar estes juisos para não ter que revelar os acontecimentos extraordinarios que precederam a minha mysteriosa apparição sobre as aguas.