Julgue-se, pois, a impressão que tão faustas noticias fariam nos ditosos viajantes, que viam desapparecer n'um minuto os perigos que ameaçavam a Republica de Veneza, para elles mil vezes mais temiveis e angustiosos, pois lhes tinham ameaçado até então a popria vida.
Quando por fim a desarvorada galera capitanea fez a sua entrada triumphal no bellissimo porto da ilha de Chypre, onde já era tambem conhecida a destruição da esquadra turca, o regosijo e a alegria não tiveram limites; Othello e Desdemona foram recebidos com o fervente enthusiasmo que só se tributa aos heroes, e toda a população distincta da ilha, com o governador Montano á frente, correu a visital-os ao palacio em que se haviam installado, para tributar-lhes sincera e franca homenagem de admiração e de estima.
Othello, pela sua parte, ao assumir, n'aquella mesma tarde, o comando supremo de Chypre, decretou em nome da Republica veneziana festas geraes durante todo o resto do dia e até á meia noute, para que o povo celebrasse, cada qual consoante a sua vontade e gosto, o ter-se livrado, tão feliz como inopinadamente, do terrivel e feroz inimigo que pretendera apoderar-se da ilha.
Em seguida, e apenas anoiteceu, retirou-se para o Palacio em companhia de Desdemona, pedindo a Montano para ainda fazer as suas vezes durante a noute, pois alem de estar fatigado, devido á accidentada viagem, era essa tambem a primeira noite em que, desde que se unira a Desdemona, podia encontrar-se a sós e tranquillo com a formosa e virginal esposa.
Montano, como póde suppor-se, accedeu promptamente ao desejo do general governador de Chypre, offerecendo-lhe cumprir o seu encargo de vigiar cuidadosamente os guardas durante a noute, tanto para acudir ás desordens e escandalos resultantes de todas as festas populares, como para não abandonar a vigilancia do porto que, não obstante o desastre casual soffrido pelos turcos, era presa demasiado cubiçada por elles para se descurar, um momento que fosse, observando com semelhante prevenção o famoso e prudente proverbio latino si vis pacem, para bellum, que deve ser sempre a divisa de todo o bom militar.
Caiu a noute sobre Chypre com os melhores auspicios e em meio da alegria de todos os seus habitantes que, já livres das tristes preoccupações que os haviam atormentado até ali se entregaram inteiramente ao gozo das festas que haviam organizado.
Ao dizermos todos os habitantes, devemos descontar dois muito nossos conhecidos, que já não participavam do regosijo commum, e recolhidos n'um angulo do edificio que servia de quartel á guarda encarregada da vigilancia do porto, conversavam animadamente e em voz baixa de assumpto que, a julgar pelo aspecto e gestos de ambos os interlocutores, devia ser de grande interesse para elles.
Estes dois personagens eram Iago, o alferes de Othello e o seu nobre companheiro Rodrigo, sobrinho de Barbancio e desprezado amante de Desdemona, o qual não deixára ainda o disfarce de marinheiro, por assim o ter aconselhado o amigo, como medida de prudencia.
O dialogo que segue porá os nossos leitores ao corrente do assumpto que tratavam, e que, como já terão advinhado, não era outro senão o dos desditosos amores da ingenua victima do alferes.
—A avaliar por quanto pude ver desde que sahi de Veneza, dizia Rodrigo ao companheiro, asseguro-te que, se não fôres o proprio diabo em pessoa, te será difficil que eu consiga o amor da minha bella prima, que dia a dia me parece mais enamorada do horroroso marido.