—Trouxeste comtigo todas as joias e quanto dinheiro podeste reunir, segundo prometteste? perguntou tranquillamente Yago, sem dar a menor attenção ás palavras do amigo.

—Nas minhas malas tenho todas as alfaias de familia, que valem para cima de dez mil escudos de ouro, e quasi outro tanto em moedas novas venezianas e genovezas, respondeu Rodrigo.

—Com menos de metade se comprava, seduzia e conquistava uma rainha, ainda que abrigasse no seio um coração mais duro que as afiadas garras do leão de S. Marcos, disse o alferes em cujos olhos brilhou um clarão de cobiça, ao ouvir as palavras do companheiro.

—Não proponho comprar Desdemona, replicou este, por duas razões: a primeira porque a conheço bem e estou certo que não é mulher que se venda; e a segunda porque receberia um amor que se daria por dinheiro e não por natural correspondencia á paixão que inspira a mulher amada.

—Ta! ta! ta! cantarolou cynicamente Yago, tudo isso são cantatas, bôas, quando muito, para servir de assumpto a rimances cantados por trovadores, depois de opipara ceia em noute de festa. A tua bella prima é como todas as mulheres, e todas as mulheres são como as andorinhas. Namoram-se de tudo quanto brilha; por isso tua prima se enamorou de Othello, porque a seus olhos brilhou mais do que todos os nobres venezianos, devido ao inegavel esplendor das suas maravilhosas proezas.

—Que devo então fazer? perguntou Rodrigo, contemplando Yago com irritação não isenta de espanto. Não me asseguraste que Desdemona está enamorada do marido?

—Nem mais, nem menos, respondeu fleugmaticamente Yago. Mas, por dizer-te que está enamorada, não significa semelhante affirmação que o esteja sempre. O amor de tua prima, nobre Rodrigo, crê piamente no que digo, pois sou homem de experiencia, não é amor verdadeiro, mas ficticio; o que poderiamos chamar amôr de imaginação.

—Como! exclamou, cada vez mais surprehendido, o joven veneziano.

—O que acabo de proferir, continuou o alferes, é precisamente a phrase approximada e perdoa que me gabe ao dizer-te que muito feliz fui em a ter encontrado: um amor de imaginação. O brilho que vê em Othello, e que a deslumbrou, não é outra coisa senão o que se vê nos heroes dos romances, que é precisamente como se apresenta o marido aos olhos de Desdemona. Ella vê o heroe, sempre o heroe. Pergunta-lhe pelo homem, e não saberá responder-te.

—Porquê? perguntou Rodrigo, verdadeiramente interessado.