—Acertaria no alvo o vosso gracejo, se visasseis o nosso tenente, que tem, na verdade, fama de irresistivel com as bellas, replicou Iago esboçando um sorriso intencionado, de que só elle percebeu a transcendencia. Quanto a mim detesto as saias, por instincto de conservação, e não trocaria uma só garrafa de bom vinho de Chypre por todas as mulheres casadas, viuvas ou solteiras, que vivem na ilha.

—Parece-me, Iago, observou Cassio affectuosamente, que acabas de fazer duas affirmações duplamente exaggeradas: uma, aquella em que alludes á minha boa estrella junto das bellas, que seja dito de passagem, só existe na tua imaginação, pois confesso-te que, até agora, não tenho na minha folha de serviços uma só conquista que valha referencia.

—Nunca é tarde quando a sorte nos sorri, replicou astutamente Iago.

«Ha quem assegure que estás a caminho de entrar por assalto n'uma praça que mais de um nobre veneziano, teu compatriota, invejaria.

—Não te comprehendo, respondeu Cassio com estupefacção tão profunda como sincera retratada no semblante.

—Saibamos, saibamos que praça é essa e veremos se é digna de disputal-a o bello Cassio! exclamou alegremente Montano.

—Se elle guarda segredo, não sou eu que tenho o direito de desvendal-o, disse hypocritamente o alferes.

—Guardo segredo porque não sei a que aventura te referes, respondeu Cassio de boa fé. Explica-te, peço, porque conseguiste intrigar-me.

—Modestia, pura modestia, discreção levada até á mudez! disse rindo o alferes. Cassio, felicito-te porque és um cavalleiro digno de ter vivido nos bons tempos do rei Arthur. Mas, continuou, dando deliberadamente outro rumo á intencional charada, cada vez me convenço mais de que o mundo está cheio de paradoxos e nós proprios o somos.

—Porquê? perguntou Montano com estranheza.