—Nada mais simples, respondeu Iago. Vocês esperavam-me com impaciencia, o que evidentemente accusa um apetite devorador; por minha parte tambem declaro que não vinha menos resolvido a entender-me com uma boa ceia. Pois bem, em vez de aproveitarmos o tempo predispondo o estomago com meia duzia d'essas veneraveis garrafas que nos escutam, para entrarmos depois heroicamente pelos manjares, estamol'o perdendo lastimosamente, fallando de mulheres, isto é, do assumpto menos substancial e mais perigoso que pode tratar-se entre cavalleiros.
—Indubitavelmente esta noute estás pouco amavel e galanteador para as damas, valente Iago, respondeu Montano rindo.
—Nem mais nem menos do que n'outras occasiões e nem menos nem mais do que o merecem, disse Iago.
E passando em revista meticulosa as garrafas poeirentas que se viam sobre a mesa artisticamente posta, pegou n'uma de respeitavel antiguidade, a julgar pelo aspecto e pela marca que ostentava na rolha, abriu-a e encheu de riquissimo e perfumado vinho os copos dos companheiros e o d'elle. Seguidamente e sem dizer palavra, bebeu-o de um trago e fez estalar a lingua com a placida expressão de um bebedor satisfeito.
Montano fez com o copo o mesmo que Iago fizera com o d'elle; mas o tenente Cassio contentou-se com leval-o aos labios e humedecel-os ligeiramente com o dourado nectar.
—Como! exclamou Iago apparentando indignação e assombro ao ver que o seu amigo voltava a por sobre a mesa o copo tão cheio como o levantára. Não bebes comnosco, ou não aprecias este vinho, herdeiro directo da sagrada ambrosia com que Jupiter obsequiava de vez em quando os seus amigos do Olympo? ignoras, por ventura, desgraçado, que o vinho de Chypre foi consagrado pela historia, atravez dos seculos, até que vencendo o seu rival Falerno, teve a honra de toldar com frequencia o cerebro de Alexandre, de produzir as gloriosas alegrias de Alcibiades, de servir de vehiculo para o veneno que matou Britanico e de inspirar os versos de Nero e os pontapés que o imperial artista dava em Popêa para a expulsar dos festins, quando o estorvava nos seus desabafos amorosos com os mancebos romanos? Ignoravas isto, infeliz? Pois bem, é um peccado de lesa ignorancia, indesculpavel n'um homem ponderado como tu; mas, apesar de tudo, Montano e eu perdoamos-te com a melhor vontade do mundo, dado que honres o historico vinho como nós o honramos.
—Nunca bebo! respondeu gravemente Cassio.
—Porquê? perguntou com curiosidade Montano. É talvez algum juramento?
—Não, respondeu o tenente; a minha repugnancia em beber obedece sómente a que o vinho me ataca de tal modo a cabeça, que basta um copo para transtornar-me por completo e fazer de mim um homem absolutamente diverso de que sou no estado normal.
—Mas ceando, aventurou Iago, é outra coisa, e affirmo que não te succederá mal algum. Além d'isso, proseguiu alegremente para animar o companheiro, estás entre amigos e, se a bebedeira te der para dormir, mandar-te-hemos deitar n'um fôfo e confortavel leito, ou então rir-nos-hemos se te der para nos insultar.