—Não quero, entendes? não quero tornar a ouvir pronunciar em minha casa, e muito menos aos teus labios, o nome de tal homem. Ouves? Pois bem, aconselho-te que não o esqueças, pois não gosto de repetir as ordens que dou, rugiu Othello.
—Não esquecerei, esposo meu, disse Desdemona, sem perder nem um instante a inalteravel doçura. Mas asseguro-te que, tu, tão prudente e generoso sempre, és injusto n'esta occasião com o pobre Cassio.
—Outra vez? gritou o mouro fóra de si. E sentindo que a cólera que o dominava o arrastava a uma brutalidade, da qual teria de arrepender-se, abandonou precipitadamente o quarto, dizendo com voz agitada para o alferes: Segue-me, Iago!
O infame não fez repetir a ordem, e sahiu na esteira do general, não sem fazer um profundo e servil cumprimento a Desdemona.
Quando se encontrou no corredor só com Othello, começou a murmurar em voz baixa:
—Que imprudentes! Quem o tivera advinhado! Chama-se a isto jogar com a propria vida!
Othello, que apezar da ira que o dementava, ouvira perfeitamente as insidiosas palavras do alferes, que com tal proposito as havia dito, embora apparentando fallar para si, agarrou violentamente Iago pelo pescoço, de tal modo que esteve a ponto de o estrangular e perguntou-lhe:
—Que dizes, mizeravel? quem são os imprudentes e os que jogam com a vida?
«Atrever-te-hias a suspeitar, infame, de minha esposa, da minha Desdemona?!
«Falla, cão, ou morrerás ás minhas mãos, aqui mesmo!