Erguemol-o anciosamente, encharcamos-lhe o rosto em agua. Pouco a pouco abriu os olhos. Estava salvo!
O sol ia justamente descendo. Eu baixei-me para a cabeça de Tuala que alli ficára n’uma poça de sangue, e, desapartando o grande diamante que lhe ornava a testa, entreguei-o solemnemente a Ignosi e bradei:
--Salvè, rei dos Kakuanas!
Elle apertou o diamante sobre a testa. Depois pousou um pé sobre o peito de Tuala morto, e cercado dos seus guerreiros entoou um canto de victoria.
CAPITULO XII
O REI IGNOSI
Tudo findára gloriosamente. Chegára a hora de repousar--ou, melhor, de convalescer. O barão e o capitão (cuja perna, de todo inchada, o fazia agora soffrer muito) foram levados em braços para a aringa palacial de Tuala. E eu para lá me arrastei, exhausto de emoções, com a cabeça consideravelmente dorida da paulada d’essa manhã na defeza do planalto.
O primeiro cuidado foi despir as cótas de malha, tarefa difficil (pelo nosso combalido estado) em que nos ajudou a linda Fulata, que se constituira, desde o começo da revolta, nossa vivandeira, nossa enfermeira, e nosso anjo da guarda. Arrancadas as cótas, vimos que os nossos pobres corpos eram uma massa medonha de pisaduras negras. No tumulto da batalha tinhamos apanhado decerto muita facada, muita lançada. As pontas dos ferros eram repellidas pela malha impenetravel; mas nem por isso cada um dos golpes arremessados deixava de constituir uma terrivel pontuada que nos amolgava corpo e membros. Eu estava positivamente negro de pisaduras. Mas o peor era a ferida de John na perna, e a do barão a quem uma das machadadas de Tuala cortára profundamente a face sobre a maxilla. Fulata preparou-nos uns emplastros de hervas aromaticas que nos alliviaram as dôres. E como o capitão John tinha noções e pratica de cirurgia (segundo contei), foi elle que fez o tratamento da ferida do barão e da sua propria, tão bem quanto lh’o permittiam os poucos fios, o resto de pomada antiseptica que encontrou na sua botica portatil, e a escassa luz da lampada kakuana.
Depois, Fulata arranjou-nos um caldo muito forte, e estendemo-nos nas magnificas pelles que juncavam o chão da aringa do rei. Mas não pudémos dormir. De toda a cidade, em torno de nós, subia a triste e ululada lamentação das mulheres, chorando, á maneira dos Zulús, os valentes mortos na batalha. Mesmo ao nosso lado, as carpideiras reaes estavam carpindo a morte de Tuala com estridente dôr. A noite ia cheia de prantos--e além d’isso a cada instante sentiamos os gritos agudos das sentinellas, ou a ruidosa passagem de rondas. Foi só de madrugada que pude cerrar os olhos--os olhos que, apesar de cerrados, continuavam a vêr os lances da batalha, com tanta realidade que por vezes estremecia em sobresalto e me erguia no cotovêlo a procurar as minhas armas, ou a lançar uma ordem de ataque.
Quando emfim acordei, com o sol já alto, soube que os meus dois amigos tambem não tinham dormido. De facto, o capitão John estava com uma intensa febre e começava a delirar. Além d’isso, symptoma assustador, toda a noite cuspira sangue. O barão, esse, mal podia ainda mexer o corpo; e a ferida da face não lhe permittia comer, escassamente fallar. Eu era ainda assim o mais restabelecido. Tomei o delicioso caldo de Fulata, e sahi um instante ao terreiro a respirar. Encontrei justamente Infandós que chegava, tão fresco e agil como se na vespera, em logar de uma batalha, tivesse celebrado uma festa. Ficou desolado ao saber a doença de John. Entrou um momento na cubata para o vêr e o barão, que não se podia ainda levantar e apenas mover os membros sobre o seu fôfo leito de pelles. Em voz baixa, por causa de John, Infandós contou-nos que todos os regimentos se tinham submettido a Ignosi, que das outras cidades chegavam ferventes adhesões, e que o novo reinado se firmava para longas éras de prosperidade e de paz.